sábado, 30 de janeiro de 2010

O fim à vista

O toque de algo gélido na pele despertou-lhe os sentidos adormecidos. Olhou em volta, avistou o longo areal deserto, as rochas pontiagudas, o oceano imenso. Estava nua, mergulhada na água do mar até ao pescoço. A noite estava quente, não corria uma brisa que fosse em toda a extensão da praia. O mar imóvel, cobria a terra como um manto alisado pelas mãos eficientes de uma dona de casa. Apenas a irreverência de pequenas ondas que feneciam na linha da areia, com o seu movimento hipnótico, perturbava a calma. A lua iluminava todo o areal, deixando um rasto prateado no negro do mar. As ondas sussurravam promessas doces. A sua mente estava apenas concentrada nas sensações que os sentidos lhe proporcionavam, a imagem, os sons, o toque frio da água a acalmar o calor da noite. A beleza que a rodeava era irreal, imaterial, dolorosa. Ela desejou que o tempo parasse, que um ser superior congelasse aquele momento até a eternidade. Não sabia o porquê do seu desejo. Sentiu uma necessidade premente de se abstrair do que a rodeava. Queria perceber onde estava, como tinha chegado aquele local. Repentinamente, os eventos recentes foram-lhe assomando à memória, em ordem inversa, como se estivessem a ser passado em reverse na televisão da sua razão.

Os pés nus a tocaram a areia húmida. A roupa a ser despida lentamente, com a languidez de um ser acabado de acordar de um sonho. Os sapatos a caírem dos pés a meio caminho do mar. Ela a sair do carro e a aproximar-se da escarpa procurando o caminho até à praia. Ela a estacionar o carro, a desligar a ignição e a sair, deixando a porta escancarada.
Ela a conduzir acima do limite de velocidade, sem qualquer atenção à estrada, apenas a observar, através do vidro lateral do carro, a paisagem, a passar rapidamente, muito rapidamente, riscando o ar como se este fosse um quadro de um pintor impressionista. Ela a entrar no carro e a liga-lo e a meter a primeira e a arrancar velozmente.
Ela a levantar-se da cadeira onde estava sentada e a começar a afastar-se dele.
Ele a debitar palavras, há um tempo interminável. O seu discurso redundante, que não saia do sítio, que não ia a lado algum. Ela a olha-lo com uma expressão sofrida. O calor daquela noite a oprimir-lhe os pensamentos e a dificultar-lhe a respiração cada vez mais sôfrega. As ideias desorganizadas na sua mente. O discurso dele a tornar-se perturbador, de tão codificado. Ela a escuta-lo em silêncio, tentando, sem sucesso, concentrar-se nas palavras dele, elaborar um quadro legível, um todo coerente, com os sons que saíam da sua boca.
As últimas palavras dele, a activarem a compreensão, a organizarem o todo, a explicarem o porquê daquele encontro.
-Já não consigo mais. É o fim...

Entrou de novo dentro de água. Mergulhou de cabeça no oceano, imenso. Deixou-se abraçar pelas ondas, beijar pela água salgada. E pensou. Talvez seja mentira. Talvez o oceano seja infinito. E reconfortou-a saber que existia algo cujo fim não está à vista.

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