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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Madrugada

Discutíamos as cantoras portuguesas. Ele apaixonado, eu desencantada.
 
- Mas ela escreve as letras. Ouve bem. É muito boa.
- Queres que te escreva uma. É já.
- Então escreve.
- Já está. (só falta alguém que a queira cantar)
 
 
Madrugada
 
Numa noite estrelada
Lá no meio do nada
Um cometa passou
E o desejo voou:
“Aquela boca beijar
E o tempo parar,
Com um olhar apagar
Toda a luz que restou”
 
 
No sossego do escuro
A guitarra tocou
Num disco que riscou,
O vento sem acalmar
A pele eriçou,
O peito quase a estoirar,
Um sufoco na alma,
O mundo que era calma
Para sempre mudou
Numa noite estrelada
Em que o cometa passou.

Esse cheiro de mar, insistente no ar
Arrepia-me, dobra-me, faz-me sonhar
Um delírio eterno, faz o mundo a girar
Esse abraço, para sempre, quero guardar
 
E quando o vento gelou,
E a paixão esmoreceu
No meu corpo e no teu,
Eu fiquei acordada
À espera, sentada
Que um milagre de santa
Numa nuvem montada,
Te fizesse voltar.
 
Mas a santa falhou
E o regresso tardou.
A paixão pereceu
Mas a promessa de amor
Num acto de teimar
Nunca se esgotou.
Para sempre ficou
Agarrada à carne
Que num dia de sol
Deste corpo brotou
 
Esse cheiro de mar, insistente no ar
Arrepia-me, dobra-me, faz-me sonhar
O delírio secou, e o mundo parou
O abraço desfez-se, o silêncio ficou.
 

sábado, 10 de agosto de 2013

"One more time"


(pela derradeira vez,
suavemente, sem hesitar,
satisfaz este capricho tolo,
permite que o mar te invada o olhar)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

26. Listening to



(je voudrais être française
devenir une fille coquette
avoir les lèvres posent
vous répondre toujours «peut-être»)*


* Apeteceu-me que fosse assim. Perdoem-me (e corrijam-me) o francês imperfeito.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Descompasso

Não sei como hei-de domar
Este orgão desobediente
Que teima sempre em galopar
Assim que te sente iminente.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Lições de evolução

Fosse eu cardiologista
e haveria de inventar
uma máquina poderosa
para o coração consertar.

Ligava uns fios ao torax,
carregava numa tecla encarnada
e em dois ou três segundos
a ferida estava sarada.

Fazia um reset total,
formatava cada emoção.
O músculo voltava ao início,
ao momento prévio à desilusão.

Resolvia assim o problema,
aquele que teima em assombrar,
o medo de que tudo volte ao mesmo
o receio de se deixar encantar.

Ralham-me porque a rima é pobre,
a métrica está sempre a falhar,
e para juntar a tanta asneira,
ainda os ouço a clamar:

"Tens a anatomia trocada!"
Mas alguém se irá importar?
Afinal toda a literatura prega
que é com o peito que se deve amar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Apostas

A ingenuidade carregada pela aflição,
Fez-me num espaço de dias esquecer
Que quem vive da competição
Não passa muito tempo sem ansiar vencer

E eu que não sei senão viver,
Mesmo que por vezes com temor,
Estou disposta a pagar para ver.
E tu? Ainda és jogador?

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Enganos

Resolvi cartografar-te,
muito devagar e com rigores.
Peguei num lápis de carvão
e apontei-te os pormenores.

Na pele memorizei-te os sinais,
dela destilei os teus odores.
E da boca, ao prová-la,
guardei todos os sabores.

Fiz mapas complicados,
devidamente legendados.
Quis tudo muito muito direito!

E com toda esta exaustão,
gerou-se a confusão.
Errei o caminho para o teu peito.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

"Desabotoa-me o peito"

Desabotoa-me o peito!
Desabotoa-o! Sim!
Eu sou um daqueles modelos antigos,
do tempo em que o corpo era feito à mão, imperfeito,
do tempo anterior ao velcro e ao fecho eclair,
do tempo em que o tempo vinha ora em demasia, ora rarefeito.

Desabotoa-me o peito!
Desabotoa-o! Sim!
Com a ânsia de um jovem enamorado
que pela primeira vez despe a mulher que ama,
e que trémulo dos pés à cabeça,
sente as entranhas e a ponta dos dedos em chama.

Desabotoa-me o peito!
Desabotoa-o! Sim!
Com a subtileza com que a gueixa,
minuciosamente cumpre o ritual do chá.
Com a paciência com que o velho
acorda para o novo dia, pela manhã.

Desabotoa-me o peito.
Desabotoa-o! Sim!
Espreita -lhe para o interior, e com as mãos,
sente as batidas do músculo em convulsão,
aparta-o da matéria viscosa que o envolve e retira-o,
para depois o abrigares junto ao teu coração.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Sentidos ao acordar

O som de vocábulos reservados
O cheiro de cigarros fumados;
A impressão dos abraços apertados;
O sabor de beijos roubados.