Quando a minha filha tinha cinco anos, chegou um dia a casa, vinda da escola, muito triste. À pergunta "O que se passa?" respondeu com um choro convulsivo. Nesse dia tinha havida passeio da escola. Imaginei que num momento de distracção das professoras, algum menino lhe tivesse feito alguma maldade e por isso chorasse. Consegui acalmá-la para que me contasse o que a preocupava. O dia tinha sido muito divertido. Tinha brincado muito com os outros meninos, mas tinha acontecido uma coisa que a deixou muito triste. Quando a camioneta do passeio partiu, perto das 10 horas da manhã, as mães ou os pais dos outros meninos estavam lá para lhes dizer adeus e ela não tinha ninguém de quem se pudesse despedir. Tal nunca me teria passado pela cabeça. Com calma, expliquei-lhe que àquela hora eu tinha que estar a trabalhar e que não poderia faltar ao trabalho. Expliquei-lhe a importância que tinha o trabalho, quer em termos de subsistência, quer de realização pessoal, quer ainda de contributo para o desenvolvimento do país. Expliquei-lhe que os pais dos outros meninos estão desempregados e que isso é uma situação que deixa as pessoas tristes. Encontrei com ela uma solução alternativa, de me fazer representar em situações futuras pelos avós que estão reformados. Arranquei-lhe um sorriso e consegui fazer passar a mensagem, pois ouvi-a, passado algum tempo, a repetir o discurso numa conversa com as amigas. Tudo ficou bem.
Na passada sexta-feira à noite, por volta das 19:30, depois de ter emitido todos os palavrões que conheço, e eu conheço muitos palavrões e diversas combinações dos mesmos, comecei a questionar os valores do trabalho que incuti à minha filha. Fiz algumas contas. Trabalho há doze anos na mesma entidade e lido no dia-a-dia com o desemprego e com desempregados. A cada dia que passa, vejo os valores relativos ao trabalho a degradarem-se exponencialmente. Quando comecei, a maior parte das pessoas tinha vergonha por estar desempregada. Como psicóloga, era uma das minhas funções apoiá-las na aceitação da sua situação, na definição de projectos de vida e na promoção da empregabilidade. Quando comecei, chegava muitas vezes a casa arrasada com as histórias que me eram relatadas, com os sentimentos que eram expressos, com as dores emocionais de quem se sentava à minha frente. Com o passar do tempo, não sei se por mecanismos de defesa, se por desânimo apreendido, se porque sentem que é um estado instituído, a maior parte das pessoas que se sentam diante de mim já não querem saber de trabalhar, querem apenas encontrar uma forma de ganhar dinheiro fácil, se possível, sob a forma de subsídio. Poucos são os que solicitam apoio na definição ou redefinição de projectos. A minha função, hoje em dia, é a de convencer desempregados de que é importante trabalhar.
Na sexta-feira por volta das 19:30 fiz mais contas e constatei que o meu vencimento, neste momento, é menor do que era há doze anos, quando iniciei a minha actividade profissional nessa entidade, e que a curto prazo irá diminuir ainda mais. Numa leitura pessoal daquilo que foi vocalizado pelo Primeiro-Ministro, o que escutei foi que o trabalho é algo com cada vez menos valor, quer monetário, quer moral e que portanto, o proveito do mesmo pode ser retirado para fins que não se sabe muito bem quais são e que não há qualquer problema. Na sexta-feira, por volta das 19:30 compreendi porque já não se esforçam as pessoas para encontrar trabalho. Afinal, a quem nada tem, nada poderá ser tirado. Na sexta-feira por volta das 19:30 fiquei com medo de, numa outra situação similar à relatada no inicio deste post, não conseguir ser suficientemente eloquente, porque deixei de ter vontade de continuar a trabalhar, porque já não acredito que valha a pena.
domingo, 9 de setembro de 2012
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Eu podia dizer palavrões, mas apetece-me mais fazer uma sondagem.
Numa maior parte dos casos para onde considera que irão os 7%
a) contratação de novos trabalhadores;
b)investimento em inovação e desenvolvimento;
c) aquisição de artigos de luxo.
Vote aqui!
a) contratação de novos trabalhadores;
b)investimento em inovação e desenvolvimento;
c) aquisição de artigos de luxo.
Vote aqui!
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Estou particularmente caustica. Aguentem que isto já passa
Um dia destes, depois de ter dado com isto enquanto fazia zapping e percorria os 5000 canais por cabo sem qualquer interesse que tenho cá em casa, fiquei tão perturbada que tive que ir à procura do Gran Torino que tinha ali guardado para uma emergência, ainda dentro do celofane. Vi o filme e repus o equilíbrio no meu mundo, não sem antes pedir a todos os deuses que nunca deixem que nos falte o dinheiro para a droga.
"Não voltarei a ser fiel"*
Uma das ironias da minha vida é um acontecimento que se vai repetindo volta e meia. Aos poucos, alguém que me é querido resolve que deve deixar-me para trás, resolve largar-me por entre os dedos e deixar-me ficar. Atribuo essa atitude ao facto de eu ser chata, de eu ser demasiado exigente com os outros, de eu não me contentar com migalhas do que quer que seja. E nem toda a gente tem paciência para aturar tal comportamento. Nestas alturas, pouco ou nada insisto para que me agarrem. Descobri já há algum tempo que, por muito que me percam, eu consigo sempre encontrar-me em mim. Por isso continuo o meu caminho, sem pensar muito no assunto. Mas no meio disto tudo há outra situação que se repete e que me baralha. A maior parte destas pessoas regressa qual filho pródigo arrependido, à procura da honestidade e lealdade que sempre lhes devotei e que resolveram desperdiçar, bradando aos céus sobre a falta que lhes fiz. E não compreendem que eu decline a sua companhia. Não compreendem que, por muito fácil que para mim seja deixar-me perder, o meu excessivo egoísmo não permite que eu me deixe reencontrar, até porque sei que, mais cedo ou mais tarde, voltarão a deixar-me na beira da estrada, entregue apenas a mim própria, com urgência de me voltar a achar.
* Música dos Santos e Pecadores e um dos meus GP
* Música dos Santos e Pecadores e um dos meus GP
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Não gosto quando a realidade passa para o cinema
Ligo a televisão e sintonizo um daqueles canais de séries que não nos obrigam a movimentar qualquer sinapse para compreendermos o enredo. Circulo pela casa, sem ligar grande coisa ao que se passa no rectângulo, terminando a deambulação na cozinha. Enfio no microondas os despojos do empadão de alheira e espinafres que sobrou daquele jantar, aquele que quase fez vítimas, coloco o prato no tabuleiro e sento-me no sofá frente ao ecrã. Um hambúrguer aparece centrado na imagem e chama-me a atenção para a cena da minha vida que ali se reproduz com todo o pormenor. Antes de desligar a televisão e voltar ao "Russo na América", ainda me detenho a escutar por segundos, a ironia mascarada de banda sonora, que acompanha as imagens. Desligo os estímulos visuais e auditivos e abro o livro para me embrenhar na violência das máfias de leste. Visto de fora, parece-me ser este o melhor plano para apaziguar o arrepio indelével, que este reflexo de espelho colou na minha pele.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Inquietações
Gostava de saber se aquelas alminhas que deliraram com cada minuto da abertura e do encerramento dos Jogos olímpicos, (e que nos brindaram com posts e posts sobre a rainha e a beleza rara da coisa e as Spice girls e o caralho) estão agora também colados à RTP2, a ver as cadeiras de rodas a dar espectáculo.
sábado, 25 de agosto de 2012
Espécie de pessoa
A cada dia que passa cresce a urgência que tenho em escrever-me. E a cada dia que passa as palavras teimam em deixar-se engasgar nas conexões neuronais, saindo apenas, após ataques sufocantes de tosse mental, em golfadas ilegíveis, que me incapacitam a compreensão. Não sei se perdi o toque, ou sequer se alguma vez o tive, mas sei que necessito dele. Nem que seja apenas para te dizer da forma mais bonita que possa existir: "Fazes-me falta. Eu continuo aqui..."
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
As não questões
Não gastaria um tostão na justiça, se o pai de um qualquer filho meu se recusasse a assumir a paternidade do mesmo. Aliás, bastaria que sugerisse sequer que o pudesse fazer, para ser imediatamente dispensado de funções. Certamente que não faria cá falta.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
sábado, 18 de agosto de 2012
Critérios de selecção
E não é que nos últimos tempos, todos os rapazinhos imberbes acabados de entrar na casa dos vinte, que dão à costa por aquelas bandas, decidiram que ela é a "next big thing" na vida deles e que não querem de forma alguma aceitar que ela seja capaz de repelir os seus avanços. Por muito que ela tente explicar-lhes, não há forma de os fazer entender que ela definiu, há já algum tempo, que jamais daria trela a gente que nasceu depois dela ter começado a namorar. A ela, esse critério parece-lhe tão bom como outro qualquer. Mas visto que lhe chamam antiquada, vai começar a apresentar explicações alternativas. Numa próxima vai alegar a cor da pele. Assim por assim, antes racista...
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
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