quinta-feira, 3 de maio de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
É que nem me apetecia nada escrever sobre isto.
Nunca me passaria pela cabeça ir às compras num dia em que as lojas, fossem elas quais fossem, tivessem uma promoção de 50%. Não porque considere que sou melhor que os outros, mas porque não necessito efectivamente de o fazer, e porque actualmente, o bem mais precioso que possuo é o tempo livre de que disponho. Por isso não costumam ver-me nas filas dos primeiros dias dos saldos, por isso, ninguém me viu ontem a entrar no supermercado que anda nas bocas do povo. Mas esse distanciamento de atitude, não me impede de perceber que nem todos os que ontem optaram por gastar o dia inteiro num supermercado sejam predadores consumistas ou zombies acéfalos. Acredito que algumas das pessoa, compraram mais do que aquilo que necessitavam, porque a compra por impulso nestes casos é inevitável, mas também sei, porque convivo diariamente com a pobreza, que para muitas daquelas pessoas ontem foi Natal e que graças ao "Menino Jesus" poderão comer com menos restrições nos próximos dias. Da mesma forma que sei que na cantina da instituição onde trabalho alguns encontram manobras de diversão que lhes permitem comer duas vezes ao almoço, porque necessitam de compensar o que não irão comer ao jantar. Assim como sei que no inicio do mês de Setembro esses mesmos chegam com a roupa a sobrar-lhes no corpo, porque Agosto é mês de férias e à sopa do jantar, tem sempre de ser acrescentada água, para sobrar para o almoço do dia seguinte. Perguntam-me como sei estas coisa? É fácil. Eu sou uma privilegiada. Tenho o condão de não viver numa redoma.
domingo, 29 de abril de 2012
Fim de semana grande
Os primeiros planos tinham Barcelona como pano de fundo. Quatro dias e três noites de Gaudi e Ramblas e Montjuic e Mirós e Picassos. Seria um duplo baptismo, nos voos dentro das carreiras aéreos e no companheiro de viagem. Mas um pedido irrecusável, que introduziu um dia de trabalho entre os dois domingos, frustrou os intentos e obrigou a que fosse delineada uma alternativa que coubessse em duas noites. O melhor que me conseguiram vender foi um programa de Spa, com a montanha como cenário. A minha primeira reacção foi de rejeição. Lá tenho paciência para essas coisas de andar de roupão a passear-me entre duches e cubas e massagens e piscinas dinâmicas e saunas e turcos e lálálá. Mas depois, num golpe baixo, aliciaram-me com a perspectiva da montanha e do silêncio e do tempo para ler sem pressas e da beleza que pede para ser fotografada. Acedi, e como recompensa tive direito a tudo o que me prometeram. Percorri a montanha e escutei o silêncio que nela se encerra, li tudo o que levei comigo e dois extras que surgiram de surpresa, fotografei toda a harmonia que me rodeava uma e outra e outra vez, e recordei que em tempos, naquela mesma montanha os flocos de neve que rodopiavam enquanto caiam do céu, gravaram-me na pele a certeza de que a cumplicidade de se partilhar algo que cresce dentro de nós, jamais permitirá que a vida seja vivida de forma igual.
(Mantenho a minha posição no que se refere aos spa's. Salvaguardo no entanto a Céu, que me convenceu que não há nada melhor no mundo que as suas mãos. Mas isso será tema para outro post.)
(Mantenho a minha posição no que se refere aos spa's. Salvaguardo no entanto a Céu, que me convenceu que não há nada melhor no mundo que as suas mãos. Mas isso será tema para outro post.)
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Para todos
O desafio é lançado e ela agarra-o de imediato. Com afinco, prepara-se para que nenhum pormenor lhe escape. Lê normativos, consulta decretos-lei, contacta com os interlocutores envolvidos. Até que finalmente chega o dia. Entra na sala que lhe foi atribuída e verifica que está cheia de homens. São catorze no total e todos olham para o seu aspecto franzino com os olhos da desconfiança. O lugar é mínimo e a testosterona ocupa todos os ínfimos espaços existentes entre as moléculas do oxigénio que rapidamente começa a rarear. Ela observa-os, parando o olhar em cada um demoradamente, e depois de terminado o reconhecimento apresenta-se em português e explica-lhes ao que vêm. Observa-os de novo e tenta perceber nos seus rostos sinais de que compreenderam o que disse. Como não encontra qualquer indício que o confirme, decide questioná-los directamente. Obtém apenas uma ou duas respostas. Volta a questioná-los, desta vez em inglês. Há mais alguns que lhe respondem. Depois em francês, com o mesmo sucesso e finalmente em russo cobrindo todos os presentes. Conduz o resto da reunião intercalando as quatro línguas, garantindo assim que se faz entender com iranianos, cazaquis, moldavos, senegaleses, ucranianos, búlgaros, húngaros, marroquinos e indianos. Aos poucos, os semblantes carregados vão dando lugar a esboços de sorrisos e os silêncios a relatos de vidas. Em duas semanas repete a dose quatro vezes sempre com interlocutores e histórias diferentes, mas com o mesmo sucesso. Concluída a tarefa, sentindo o cansaço do dever cumprido a escorrer-lhe pelos poros, entrega-os a quem lhes pode dar acesso à língua do país que os acolhe e dirige os seus esforços noutras direcções. Hoje, numa acção de acompanhamento, entra no espaço que ocupam e após saudá-los, eles respondem-lhe em uníssono, exibindo largos sorrisos, numa cacofonia de acentos "Boa tarde". Sorri-lhes de volta, faz duas ou três perguntas e despede-se. Mais uma vez, a uma única voz, e armados de orgulho, articulam um "Até logo". Ela sai e enquanto percorre o roseiral que a separa do seu espaço, pensa que continua a ser aquilo que os outros rejeitam, aquilo que evitam, o que realmente a faz feliz.
sábado, 21 de abril de 2012
Homens que dissertam sobre homens
"Somos nós - nós os homens - que ficamos assustados, nervosos, que cometemos erros; se às vezes nos armamos em cépticos ou em dominadores é porque desconfiamos de que estamos errados de qualquer maneira profunda e incalculável, o que não acontece com as mulheres. Os papéis que representamos já não convencem ninguém, os nossos vícios e hábitos dão ridículos e quando chegamos às portas do céu a enorme mulher negra que as guarda rirá de nós, não só porque não somos inocentes, mas porque não fazemos ideia daquilo que é de facto importante."
Michael Cunningham - Ao cair da noite. pp.84
Michael Cunningham - Ao cair da noite. pp.84
quarta-feira, 18 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Está quase!
Se ficaram de boca aberta quando ela, apenas com duas palavras e muita ousadia, o fez sair da toca para, num acto inédito, lhe satisfazer um pequeno desejo, nem quer imaginar como ficarão quando ele voltar a dirigir-se a ela ignorando o costumeiro e impessoal tratamento profissional, para a tratar carinhosamente pelo diminutivo do primeiro nome.
sábado, 14 de abril de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Havia necessidade?
Entram a gritar com o mundo e comigo, como se o ruído que fazem resolvesse a precariedade instalada. Depois de permitir um ou dois minutos de algazarra, com alguma paciência, apresento os meus argumentos, numa tentativa habitualmente vã de que me escutem em sossego. Continuam a vociferar impropérios da mais diversa ordem. Ainda em voz baixa, que a minha voz aguda soa como um cacarejo quando a elevo, incito-os a que baixem o tom de voz, habitualmente sem sucesso. Repito a sugestão, desta vez de forma um pouco mais impositiva, acrescentando com a expressão facial mais neutra que me assiste, que não gosto que me gritem, pelo que só continuaremos a conversa se falarem baixo. O espanto causado por tal atrevimento cala-os e permite-me apresentar os argumentos que confirmam sempre que a razão está do meu lado. Já em sossego, e enquanto exponho as alternativas que têm à disposição, vão acenando com a cabeça em sinal afirmativo, mostrando-se na disposição de pôr em prática qualquer sugestão que lhes seja dada. Quando dou por terminada a interacção, agradecem e abandonam o espaço despedindo-se com toda a amabilidade e sussurrando um "Até breve!". São homens que não sabem senão mandar. São homens que se despem de todo o autoritarismo, e se deixam cobrir com o manto da submissão, sempre que encontram uma mulher que não se deixa dominar.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
domingo, 1 de abril de 2012
Não sei dizer adeus.
Não se atrevem a declara-lo, mas dirigem-me o olhar e o silêncio como se fosse um dedo em riste, apontado ao meu egoísmo, tentando obrigar-me a mudar o sentido da minha vontade. Não compreendem porque me recuso a agir ou reagir se, afinal, poderá ser esta a ultima oportunidade de o fazer. Não sabem que depois de tudo se esvair, são as memórias o que perdura, e que as estas são demasiado poderosas. Não compreendem porque declino a oportunidade de um recordação final. Não me dou ao trabalho de lhes responder que prefiro preservar a melhor que tenho, aquela que, com toda a certeza, será a que ele quer ver guardada.
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