sábado, 29 de outubro de 2011

Reencontros

Reencontrei-a ao fim de 6 anos. Apesar de envelhecida, mantém o ar de menina mal comportada que sempre lhe conheci. Cambaleava quando a via aproximar-se ao longe. Lancei-lhe um grito em forma dos seus dois primeiros nomes. Ela avistou-me e gritou também: "- Ó gaja! Que fazes aqui?". Aproximou-se de mim ainda a cambalear. Verifiquei que não tinha bebido nada, mas percebi que, nos dias de hoje, já só sabe caminhar desta forma. Demos um abraço sentido e sentamos-nos a fumar o cigarro da praxe. Eu senti-me transportada para o tempo em que quase vivíamos juntas. Mais uma vez conversamos sobre gajos e copos e vidas e merdas. E foi como se retomássemos a ultima conversa que tínhamos tido, há muito, muito tempo atrás. Separamos-nos ao fim de algum tempo para darmos seguimento aos nossos afazeres. Ambas nos afastamos a sorrir, satisfeitas. E eu fiquei com a agradável sensação de que há coisas que nunca mudam e de que há coisas que sempre nos farão felizes.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O xadrez é um jogo que se joga a dois.

Ela preparou-se para dormir. O cansaço acumulado e as baterias descarregadas pedem-lhe cama, muita cama. Estava prestes a desligar todos os aparelhos electrónicos quando a curiosidade mórbida a atacou e a impeliu a carregar numa das teclas do canto. A folha em branco encheu-se de letras e ela começou  a lê-las. E de repente deu de caras com a afirmação, ali, escarrapachada, salientada com pontuações simétricas, a confirmar tudo o que ela já conjecturara. E mais uma vez, apesar das dúvidas que se coloca e que permite que os outros lhe coloquem, soube que a sua capacidade de leitura se mantém intacta. E regozijou, porque percebeu que isso ninguém lhe poderá tirar, porque hoje vai dormir mais descansada.

Se eu te oferecesse um poema, fazias as pazes comigo?

Dias

Se tens por vezes desses dias
em que as montanhas se confundem 
ou com a neve que as oprime
ou com as nuvens que as circundam

também eu tenho destes dias
em que as montanhas me seduzem 
desde que a neve as não agrida
nem vogue em torno uma só nuvem

Mas temos ambos outros dias
em que as montanhas são de lume
É quando a neve se expatria
mesmo que as nuvens não sucumbam

David Mourão Ferreira - Obra poética

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Explicações

Há quem diga que sou fria. Outros apelidam-me de anti-social. Há quem diga ainda simplesmente que tenho mau feitio. É  tudo verdade. Isso e o facto de não querer na minha vida gente que não me interessa, da mesma forma que não quero estar na vida de gente a quem eu não interesso. E por isso, apenas vou dando espaço aos poucos a quem chega e mostra que veio por bem, e vou aumentando esse espaço a quem fica e vai ficando por bem. Mas em situação alguma deixo que me tomem de assalto, que usurpem mais do que tenho disponível. E da mesma forma e num exercício de equidade e coerência tento, a todo o custo, não me impingir aos outros, e não ocupar nem mais um milímetro para além do espaço que me colocam à disposição. E por isso, quando sou ausente e distante e fria e anti-social é porque sinto que não há lugar para mim naquele terreno. Por vezes engano-me. Nessas alturas, basta apenas que me convidem de novo a entrar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Descompasso

Não sei como hei-de domar
Este orgão desobediente
Que teima sempre em galopar
Assim que te sente iminente.

Na primeira noite do Outono


domingo, 23 de outubro de 2011

Se há democracia, comemos todos!

http://www.publico.pt/Pol%EDtica/ministro-da-administracao-interna-renuncia-ao-subsidio-de-alojamento-1517844?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+PublicoRSS+%28Publico.pt%29

Parece-me bem. Até porque, muitos de nós também terão que renunciar ao subsídio de Natal e de férias. E pasmem-se! Esses também estão na lei...

Porque andamos por aqui?

"...à travers le récit on apprend à analyser la réalité, à organiser et à comprendre le monde dans lequel on vit, le monde naturel autant que le monde social."

Porquoi nous racontons-nous des histoires? Le récit au foundement de la culture et de l'identité individuelle. Jerôme Bruner

Já falta pouco

As desculpas pintam-se sempre de amarelo



(ou Há coisas que nunca mudam.)