sábado, 1 de outubro de 2011
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Fora com o limbo
Na primeira vez, ele colocou-se numa posição secundária, dando um maior protagonismo ao co-actor principal. A dada altura, olhou-a demoradamente nos olhos, sorriu e denotou apreciar o reconhecimento de que ela é alvo mas, numa atitude de total sobriedade, optou por evitar a interacção verbal. Hoje, passada apenas uma semana, e no segundo cruzamento entre ambos, sem esquecer o papel de líder que lhe está reservado, e uma vez só nessa posição, resolveu transformar-se momentaneamente em humorista e gracejar sobre a complexidade das leituras dela. Fez o inadmissível. Ousou evidenciá-la perante a audiência e obteve o resultado inédito de a fazer corar. Não contente, repetiu a provocação uma segunda vez. Ela esboçou um esgar com os lábios e manteve-se sossegada a aguardar uma oportunidade. Percebeu que não tardaria. Acertou. Em poucos minutos encontrou-lhe uma lacuna no argumento, que rapidamente contrapôs com os seus conhecimentos, expondo a falta de cultura dele. Ele sorriu e em tom humorístico lançou-lhe uma ameaça. Desta vez foi ele quem enrubesceu. Voltou a olhá-la demoradamente nos olhos. Ela, correspondeu ao olhar, mostrando-lhe que tinha compreendido o seu significado e com um sorriso de desafio nos lábios e nos olhos respondeu-lhe apenas: "Sabe. Eu sei destas coisas porque leio livros complicados."
Formatos
Esquece tudo o que sabes. Nada do que possas ter experimentado, treinado ou ensaiado até à perfeição, resultará. Com o tempo, se permaneceres, compreenderás que naquele espaço onde ela se movimenta tudo é diferente, a começar por ela, e que nada acontecerá conforme antecipaste, porque ela nunca irá sentar-se no banco traseiro, passivamente, à espera que a guiem. Ela não aceita ser menos que o co-piloto que discute trajectos e, por vezes, quando o percurso de todo não lhe agrada, toma de assalto o lugar do condutor e, numa atitude despida de democracia, se encaminha para onde a vontade lhe ordena. Por isso esquece tudo o que sabes. Ela não quer senão a originalidade, não quer senão ser tratada como a tela em branco, na qual o artista se entrega gravando pinceladas únicas, num trabalho de génio. Por isso esquece, esquece tudo o que sabes, abandona os gestos formatados e as palavras repetidas, e espera. E verás que, num acto de generosidade, ela será capaz de, por breves momentos, apenas aqueles expressamente necessários, te levar para além do infinito.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Conjugações verbais.
Hoje, no seguimento do famoso "há-des", que de forma alguma está relacionado com mitologia, ou as tantas até está e eu é que faço uma interpretação demasiado simplista do fenómeno, ouvi um "há-dem surgir".
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
"Surrealizar por aí"
A diferença entre a racionalizaçáo de ambos é que a dela sai-lhe pela boca, em forma de verborreia, enquanto a dele encerra-se no corpo, em forma de contracção muscular.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Maturidade
Ela podia ter ido. Tinha várias razões para ir. Até era suposto que fosse. Pelo menos, até a terem informado que já não tinha a obrigação de ir. Até porque, ninguém sabia que ela já não necessitava de ir. E ela podia bem ter feito de conta que não sabia que a tinham dispensado. Afinal, no mesmo momento que a dispensaram, acabaram por convidá-la a ir. Logo, ela tinha justificação para ir, aliás, tinha toda a legitimidade. Toda a gente concordaria com isso. Não haveria alguém que pusesse em causa a sua presença. E ela sabia disso. E mesmo assim não foi. Inventou deveres familiares e domésticos e maternais e outros afins e não foi. Convenceu-se de que seria melhor manter-se longe. Sabe que o confronto é iminente, que acabará por suceder mais cedo ou mais tarde, e que a sua probabilidade aumenta a cada dia, a cada hora, desde que um novo espaço foi ocupado em simultâneo. Sabe que bastará um cruzar de olhares para voltar ao início feliz e continuar até a um doloroso fim. Sabe que irá envidar todos os esforços para o adiar o inevitável até ao infinito, pelo menos, enquanto lhe for possível.
Qualificações
Tens como instrumento de trabalho o comportamento. Usas os olhos e os ouvidos como principais ferramentas. Andas nisto há anos. Um dia acordas e descobres que não consegues parar. A leitura é algo que te é intrínseco, inevitável, mesmo quando fechas as pálpebras ou inibes os tímpanos, mesmo quando percebes, de antemão, que o melhor é mesmo não saber.
domingo, 25 de setembro de 2011
Constatação # 10
Quanto mais nos ocupam o tempo, mas valorizamos aquele que nos sobra, principalmente depois de mais uma tarefa cumprida.
Lá voltou a sair mais uma verdade à la Palice.
Lá voltou a sair mais uma verdade à la Palice.
Pré-adolescência precoce.
Aparece-me com um quadro magnético cheio de riscos e diz:
- Sabes o que está aqui desenhado?
- Não faço ideia. - respondo eu.
- É um tornado. É difícil de perceber porque eu desenhei nevoeiro.- Diz ela, com um tom condescendente, numa tentativa de minimizar a frustração que pensa ter-me causado.
- Sabes o que está aqui desenhado?
- Não faço ideia. - respondo eu.
- É um tornado. É difícil de perceber porque eu desenhei nevoeiro.- Diz ela, com um tom condescendente, numa tentativa de minimizar a frustração que pensa ter-me causado.
sábado, 24 de setembro de 2011
Inevitável
A imagem dela entrou-te pelos olhos dentro e rapidamente percorreu os caminhos dos nervos ópticos até se alojar para descansar num cadeirão do teu lobo occipital. Ficasse ela por aí e a calma poderia manter-se. Mas as imagens são traiçoeiras e quando menos se esperava, já ela tinha metido pés ao caminho e começado a brincar às escondidas entre o córtex pré-frontal e as zonas laterais do hipotálamo. E tu, pobre diabo, que nada sabes de neurofisiologia, não consegues compreender o como ou o porquê, de um simples vislumbre se transformar nesse desassossego sorridente, do qual nada te poderá salvar, nem sequer a lobotomia.
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