quinta-feira, 1 de setembro de 2011
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Tragédia grega versus aventura alemã
E agora? Leio mais umas páginas da Odisseia ou vejo na televisão a série cujo anuncio reza assim "depois de 14 temporadas, ainda não descobriram que os carros não foram feitos para voar?" ?
Curto, mas nada grosso.
"tenho vindo a constatar que, apesar de tudo, há pessoas que estão melhor mal acompanhadas do que sozinhas. saber estar só é quase uma arte. saber aguardar por boas companhias, por seu turno, é uma espécie de rasgo de génio. definitivamente não é para qualquer um."
Para quê o esforço, se há quem o escreva melhor que nós. É por estas e por outras que a x se tornou uma das minhas preferidas.
Para quê o esforço, se há quem o escreva melhor que nós. É por estas e por outras que a x se tornou uma das minhas preferidas.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Nem tudo o que reluz é de ouro
Há muito tempo que querias. Não sabes bem porquê, mas querias e querias muito. Procuravas, insinuavas o teu querer, entristecias-te com o silêncio que tinhas como resposta. Desististe. Não de querer, mas de ruidosamente mostrar que existias. Abandonaste-te ao silêncio do resignado, sentada com a cabeça apoiada na mão esquerda, à espera sem esperança.
Um dia sem aviso, quando tu já quase tinhas desistido até de querer, ouves um ruído e vês que o esperado acaba de te cair no colo. A memória reaviva-se. Recordas-te de todas as penas por que te fizeste passar e abraças a sua chegada com toda a tua força. Na euforia do momento não sentes que os braços se vão soltando aos poucos, que o abraço se está a tornar lasso e que nada fazes para o voltar a apertar. Pensas que é um reflexo, mas não imaginas que é condicionado. Até que sentes que o sorriso começa a esmorecer nos teus lábios e que as tuas pernas querem caminhar para longe. Sentes vontade de fugir. Necessitas de te afastar o mais possível. Sentes-te a sufocar. Pensas que morres se não escapares.
Sem aviso, tal como chegou, percebes que se prepara para de novo partir. Nada fazes para o deter. Tentas esboçar um sorriso para a despedida, mas apenas consegues um esgar. Acenas e respiras fundo assim que o vês dobrar a última esquina.
Descobriste, tarde demais, que agora que se prepara para ser teu, afinal já não o queres.
sábado, 27 de agosto de 2011
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Há mar e mar...
"Desde a mais negra antiguidade que as mulheres dizem essas palavras a marinheiros de todos os mares, em portos de todos os tamanhos; palavras de aceitação dócil da autoridade do horizonte, de homenagem cega a essa misteriosa fronteira azul; palavras que nunca deixam de conferir, mesmo à mulher mais orgulhosa, a tristeza, as esperanças e o desejo de liberdade da prostituta: "É amanhã que te vais embora, não é?""
O marinheiro que perdeu as graças do mar. Yukio Mishima, pp. 73
O marinheiro que perdeu as graças do mar. Yukio Mishima, pp. 73
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
Memória olfativa
Em véspera de aniversário retoma a arte da pastelaria, que tinha colocado em suspenso por falta de público. Após 15 minutos de forno, as bolachas de azeite e canela começam a soltar um odor perturbante que evoca pequenos-almoços de pão fresco e manhãs de trabalho com um sorriso nos lábios. Esta fornada não será nomeada preferida ou sequer elogiada com beijos, esta fornada será somente mais uma peça na memória fragmentada pela tempo e pela distância.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Às vezes é preciso crescer para desfrutar.
"Mas havia mais uma coisa: um livro aberto em cima da mesa. Nunca ninguém abrira um livro numa mesa daquele café. Para Tereza, o livro era o santo e a senha de uma irmandade secreta. Para enfrentar o mundo grosseiro que a rodeava não tinha, com efeito, senão uma arma: os livros que ia buscar à biblioteca municipal e que eram sobretudo romances; lia-os aos montes, de Fielding a Thomas Mann. Davam-lhe uma oportunidade de evasão imaginária, arrancando-a a uma vida que não lhe oferecia satisfação de espécie nenhuma, mas, enquanto simples objectos, também tinham um sentido. Gostava de andar na rua com livros debaixo do braço. Eram para ela o que a bengala era para os dandies do século passado. Distinguiam-na dos outros."
A insustentável leveza do ser. Milan Kundera, pp. 52.
A insustentável leveza do ser. Milan Kundera, pp. 52.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
terça-feira, 9 de agosto de 2011
O impensável pode estar na próxima esquina
O dia começou com uma série de indícios que não prenunciavam nada de bom. O despertador tocou demasiado alto, deixando no ar um eco que se propagou pelos tímpanos e pelas conexões neuronais. A memória da contrariedade da tarde do dia anterior era visível nas protuberâncias que tinham eclodido e e que teimavam em manter-se abaixo dos olhos. O sorriso ensonado, mas pronto a fazer qualquer diabrura, que habitualmente a faz despertar, estava a alguns quilómetros e o acto falhado de colocar duas chávenas na mesa do pequeno almoço tornou consciente a dimensão da sua ausência.
Preparou-se sem qualquer cuidado para mais um dia de trabalho. Vestiu a primeira coisa que encontrou, calçou os sapatos que estavam fora do armário e saiu de casa, sem sequer se lembrar de espalhar creme hidratante no rosto, ou de aspergir para o pescoço algumas gotas do perfume que usa há anos e sem o qual se sente incompleta, uma vez que já se tornou num elemento da sua identidade. Saiu para a rua e conduziu até ao destino em modo "não se metam comigo hoje".
Assim que chegou ao local de trabalho, e após tomar o café que habitualmente amacia com duas gotas de leite e adoça com um pacote de açúcar inteiro, enclausurou-se no espaço que lhe está destinado e esperou quieta que o telefone desse início ao tormento da desmotivação que tem sido uma constante nas ultimas semanas. Não foi necessário esperar muito para que lhe anunciassem a primeira marcação do dia. Fez questão, como é seu hábito, de não fazer esperar o individuo e deu ordem para que o fizessem entrar de imediato.
O homem que lhe apareceu à frente tinha um ar franzino, de tão baixo e magro, um semblante triste e um rosto que carregava bem mais anos do que os que o cartão de cidadão indicava. Antes ainda de lhe perguntar o que quer que fosse, ele disparou que estava ali porque queria aprender a ler e escrever, que a vida tinha sido difícil e que abandonara a escola na terceira classe porque tivera necessidade de trabalhar, que o que tinha aprendido na escola já tinha sido esquecido ao longo dos anos e que agora, que tinha mais tempo livre, queria ser uma pessoa normal, e repetiu que queria aprender a ler e a escrever. Apanhou-a desprevenida, tal foi a convicção com que o disse. Deixou-a entusiasmada, tal foi a vontade com que se expressou. Ela com o zelo que lhe é habitual, colocou-lhe todas as questões essenciais à compreensão do problema, explicou-lhe com todos os preceitos o procedimento a realizar, deu-lhe instruções precisas acerca das diligências a tomar e assegurou-se de que ele tinha compreendido tudo o que fora verbalizado. Sem mais assuntos a tratar, ela deu por terminada a interacção, marcando um novo encontro para avaliar a evolução do processo. Quando se despediram, ele agradeceu-lhe genuinamente pelo que ela tinha feito por ele e quase sorriu. Ela disse-lhe um "não tem nada que agradecer", e repetiu "não tem mesmo nada que agradecer", em tom mais baixo, tentando esconder a vergonha que a hipocrisia lhe estava a causar, tentando esconder o embaraço de não ter sido capaz de lhe agradecer a ele, por lhe ter voltado a ensinar a razão porque está ali, por lhe ter dado ânimo para continuar a percorrer os caminhos árduos da evangelização, por lhe ter renovado a confiança que os outros teimam em tentar abalar, por lhe ter aniquilado, logo cedo pela manhã, o potencial negativo do dia que começava, por lhe ter feito irromper um sorriso nos lábios, que ainda lá se mantêm à hora de deitar.
Preparou-se sem qualquer cuidado para mais um dia de trabalho. Vestiu a primeira coisa que encontrou, calçou os sapatos que estavam fora do armário e saiu de casa, sem sequer se lembrar de espalhar creme hidratante no rosto, ou de aspergir para o pescoço algumas gotas do perfume que usa há anos e sem o qual se sente incompleta, uma vez que já se tornou num elemento da sua identidade. Saiu para a rua e conduziu até ao destino em modo "não se metam comigo hoje".
Assim que chegou ao local de trabalho, e após tomar o café que habitualmente amacia com duas gotas de leite e adoça com um pacote de açúcar inteiro, enclausurou-se no espaço que lhe está destinado e esperou quieta que o telefone desse início ao tormento da desmotivação que tem sido uma constante nas ultimas semanas. Não foi necessário esperar muito para que lhe anunciassem a primeira marcação do dia. Fez questão, como é seu hábito, de não fazer esperar o individuo e deu ordem para que o fizessem entrar de imediato.
O homem que lhe apareceu à frente tinha um ar franzino, de tão baixo e magro, um semblante triste e um rosto que carregava bem mais anos do que os que o cartão de cidadão indicava. Antes ainda de lhe perguntar o que quer que fosse, ele disparou que estava ali porque queria aprender a ler e escrever, que a vida tinha sido difícil e que abandonara a escola na terceira classe porque tivera necessidade de trabalhar, que o que tinha aprendido na escola já tinha sido esquecido ao longo dos anos e que agora, que tinha mais tempo livre, queria ser uma pessoa normal, e repetiu que queria aprender a ler e a escrever. Apanhou-a desprevenida, tal foi a convicção com que o disse. Deixou-a entusiasmada, tal foi a vontade com que se expressou. Ela com o zelo que lhe é habitual, colocou-lhe todas as questões essenciais à compreensão do problema, explicou-lhe com todos os preceitos o procedimento a realizar, deu-lhe instruções precisas acerca das diligências a tomar e assegurou-se de que ele tinha compreendido tudo o que fora verbalizado. Sem mais assuntos a tratar, ela deu por terminada a interacção, marcando um novo encontro para avaliar a evolução do processo. Quando se despediram, ele agradeceu-lhe genuinamente pelo que ela tinha feito por ele e quase sorriu. Ela disse-lhe um "não tem nada que agradecer", e repetiu "não tem mesmo nada que agradecer", em tom mais baixo, tentando esconder a vergonha que a hipocrisia lhe estava a causar, tentando esconder o embaraço de não ter sido capaz de lhe agradecer a ele, por lhe ter voltado a ensinar a razão porque está ali, por lhe ter dado ânimo para continuar a percorrer os caminhos árduos da evangelização, por lhe ter renovado a confiança que os outros teimam em tentar abalar, por lhe ter aniquilado, logo cedo pela manhã, o potencial negativo do dia que começava, por lhe ter feito irromper um sorriso nos lábios, que ainda lá se mantêm à hora de deitar.
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