terça-feira, 15 de março de 2011

De(formação)

Após 3 horas a debitar comandos e mais comandos de programas informáticos cujo único objectivo é transformar fotos mais ou menos más em fotos mais ou menos boas, o formador explicou-nos que, quando temos uma imagem que nos apetece guardar, o melhor é tirar a foto no momento, e depois, se necessário for, apagar alguns elementos que possam estar a sobrar no enquadramento. E dizia-nos isto, mostrando, lado a lado num diapositivo, duas fotos quase iguais, onde apareciam algumas pessoas a construir um tapete de flores para uma procissão. Numa das fotos, aparecia, do lado direito, no meio do asfalto, um balde de plástico vermelho com uma asa branca, na outra aparecia apenas o asfalto brilhante, livre do balde vermelho.
- Photoshop! - dizia o senhor com a sua graça natural que nos arranca risada atrás de risada.
Depois de acabada a sessão, não consegui deixar de pensar no balde vermelho, que ora aparecia numa foto, ora desaparecia na outra. E imaginava como seria tudo mais fácil se fosse possível, em alguns dias da nossa vida, termos um Photoshop da realidade que, com vista a intrujar a existência, comportasse as funções de "apagar pessoas desagradáveis", "clarear o céu cinzento e todas as sombras", transformar as gotas de chuva em arco-íris luminosos", “mascarar o cansaço com boa disposição", entre outras. E na minha versão, num cantinho escondido, estivesse um pequeno botão em forma de coração que, com um simples clique, copiasse e colasse os teus braços, debaixo dos meus lençóis, na hora de eu adormecer.

Será que a Adobe me comprava a patente?

sábado, 12 de março de 2011

Porque cada fim não é mais que um reinício...

La Fin de la Journée


Sous une lumière blafarde
Court, danse et se tord sans raison
La Vie, impudente et criarde.
Aussi, sitôt qu'à l'horizon

La nuit voluptueuse monte,
Apaisant tout, même la faim,
Effaçant tout, même la honte,
Le Poète se dit: «Enfin!

Mon esprit, comme mes vertèbres,
Invoque ardemment le repos;
Le coeur plein de songes funèbres,

Je vais me coucher sur le dos
Et me rouler dans vos rideaux,
Ô rafraîchissantes ténèbres!»

Fleurs du Mal— Charles Baudelaire

(...fico à espera que a fénix se deixe encontrar.)

domingo, 6 de março de 2011

Domingo

Quiri quiri quiri quiri

Que bem me sabe, apesar da ressaca, acordar a um domingo de manhã e perceber que o povo do meu país tem sentido de humor.

sábado, 5 de março de 2011

Gostos não se discutem #2

(Imagem retirada daqui)

Tem fama de ter mau feitio e de maltratar a mãe, mas é um actor do caraças e lindo de morrer.

As minhas verdades

Não sou exemplo para à geração “à rasca". Tenho um emprego estável, um vencimento razoável e a viagem entre casa e o trabalho demora-me, na pior das hipóteses 10 minutos. Não tenho dívidas. O que ganho permite-me sustentar-me e ainda juntar uns trocados para um luxo ocasional. Posso afirmar que tenho uma qualidade de vida muito boa.
Como disse, apesar de nem sempre ter tido estas condições de vida, não sou exemplo. Mas alguns dos meus amigos são. E posso falar-lhes daquele que deixou a família cá em Portugal e emigrou para África, para poder juntar algum dinheiro, uma vez que cá no país não conseguia as condições de emprego que pretendia. Ou posso falar-lhes de um outro que trabalha a cerca de 60 quilómetros de casa, e cuja quase metade do vencimento, por não ser tão elevado quanto isso, fica no caminho, em combustível e portagens. Isto porque os horários que tem nem sempre lhe permitem usar os transportes públicos. Ou a outra que trabalha em dois sítios, porque apesar de um deles lhe garantir o sustento, não quer que nenhuma porta se feche e portanto mantém um segundo emprego que lhe dá dores de cabeça e um lucro monetário quase nulo. Ou então posso falar-lhes de uma outra, que por amor veio do Leste, onde tinha um emprego relacionado com a sua formação e que lhe conferia elevado prestígio, e que chegada cá, porque queria contribuir para a economia doméstica, aceitou trabalhar como empregada de balcão até conseguir, à custa de muitas batalhas e enorme esforço, encontrar trabalho na sua área de formação de nível superior.
Estes são os meus amigos, que nunca se queixaram que estão à rasca, porque fazem pela vida. Não terão uma vida fácil, mas têm a dignidade de quem fez tudo o que estava ao alcance para não depender de terceiros.
Desculpem-me a sinceridade, mas em grande parte dos casos, neste momento, não me parece que estejamos perante uma geração "à rasca", mas sim perante uma geração de "atados", que pouco ou nada faz, para que a vida lhe corra melhor.

Revelações

O segredo, miúda, é bem simples. Se ele for um homem, claro, porque se for um miúdo difilcimente surtirá efeito, e não te esqueças que muitos deles mantêm-se miúdos por toda a vida. Mas como te dizia, o segredo é muito simples, só tens que te certificar de que não te falta a energia para continuares a operacionaliza-lo indefinidamente.
 Então, é assim. Acorrenta-o a uma cadeira da montanha-russa e venda-lhe os olhos. Dá o sinal de partida e certifica-te que o motor nunca pára. E acima de tudo, nunca o deixes tirar a venda, pois será o inesperado o que o fará permancer.

Há gente que nunca nos desilude.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Constatação #6

É quase sempre na iminência de a perder que ele começa a encontrar-se.

quinta-feira, 3 de março de 2011

As estradas que se atravessam.



It took me nearly a year to get here. It wasn't so hard to cross that street after all. It all depends on who is waiting for you on the other side. - Elizabeth.

Transformações

O conquistador hábil é uma espécie de alquimista. Com paciência junta ingredientes sagrados, cozinha-os em lume brando, e vai tentando transformar, aos poucos, blocos de granito inquebrável, em torrões de areia que se desfazem ao mais leve toque. O conquistador hábil, ao contrário do alquimista, é capaz de transformar o metal mais inútil, no ouro mais puro.

terça-feira, 1 de março de 2011

Quimeras

"The moral I draw is that the writer should seek his reward in the pleasure of his work and in the release from the burden of his thoughts; and, indifferent to aught else, care nothing for praise or censure, failure or success"

W. Somerset Maughan. The Moon and Sixpence. pp. 8

O dia...

...é hoje.

(mensagem tão encriptada que nem mesmo o destinatário a vai compreender).

A promise that I could not keep...

Faças o que fizeres, tem atenção ao que te digo. Não lhe cries expectativas, se não tiveres a certeza absoluta que possuis os meios e a coragem para as cumprir, porque, caso contrário, estás apenas a contribuir para que se acrescente mais uma camada de material inquebrável à dura casca de noz onde ela se refugia do mundo e das pessoas.