A loiça do jantar está lavada e empilhada no escorredor. A areia do gato foi trocada. O saco de água quente está já colocado na cama. A chávena com a infusão de ervas calmantes está sobre a mesa-de-cabeceira, mesmo junto à pilha de remédios para a asma. A criança foi embalada com uma história e já dorme. A casa está em sossego absoluto.
E eis que chegas tu, com esse teu ar angelical. Sorris, dás as boas noites e qual dona de casa que se sabe traída pelo marido embora nunca o admita começas de imediato a refazer as tarefas domésticas que já estão concluídas, e soltas a língua num metralhar desenfreado de palavras ocas e ideias vazias. Precisas de ocupar as mãos e a cabeça. Só assim consegues sobreviver. Só assim consegues, com mestria, transformar o inferno ardente a que nos condenaste, numa sucessão de prados floridos aquecidos pelo sol da Primavera. Pena que, apesar do belo cenário, eu continue a sentir as labaredas que me queimam a pele e a ouvir os gritos agonizantes que me retalham os ouvidos.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Dos diversos fantasmas.
Depois de preparado o teatro da intervenção, deitei dois dedos de whiskey velho num copo de balão e bebi-o de um trago só, sem o saborear devidamente. A bebida cumpriu a sua função, deu-me a coragem necessária para continuar.
Limpei a superfície com álcool etílico. Com a mão firme e a precisão cirúrgica que a tarefa implicava, segurei o bisturi no ar, afundei-o até ao local escolhido e comecei a cortar. Primeiro a pele, de seguida o músculo, as veias, os tendões, tudo até chegar ao osso. Terminada a tarefa, pousei o bisturi e olhei para o tabuleiro colocado em cima da mesa. Escolhi um cutelo bem afiado, segurei-o com firmeza, levantei-o bem alto e com rapidez, sem qualquer reflexão, apliquei um golpe seco sobre o osso, golpe que separou o membro ferido do corpo que aos poucos se preparava para matar. Estava cumprida a tarefa. Tinha sido eliminado o pedaço de carne podre. O ser que o carregava poderia encher-se de novo de vida.
Com todo o rigor, cauterizei as veias, cozi a carne e apliquei-lhe os unguentos mágicos que se vendem na farmácia, para garantir que a ferida cicatrizaria devidamente.
Antes de sentir firmeza na cura, comprei uma prótese. O corpo teria que habituar-se a ela. Aos poucos fui obrigando a que a experimentasse, uns minutos, umas horas, uns dias, até que a mesma se tornou parte de si. Ao fim de alguns meses, a situação estava regularizada. O corpo tinha recuperado a saúde habitual, a prótese funcionava às mil maravilhas na substituição do membro, tudo era perfeito. Bem, tudo não. Havia ainda aquela dor intermitente que se instalara no lugar do membro cortado. Dor que quando dava acordo de si, nenhum analgésico era capaz de abrandar. Dor cujo desaparecimento não se vislumbra. Dor que a vai acompanhar até ao fim dos seus dias. Dor que a ciência apelida “do membro fantasma”.
Limpei a superfície com álcool etílico. Com a mão firme e a precisão cirúrgica que a tarefa implicava, segurei o bisturi no ar, afundei-o até ao local escolhido e comecei a cortar. Primeiro a pele, de seguida o músculo, as veias, os tendões, tudo até chegar ao osso. Terminada a tarefa, pousei o bisturi e olhei para o tabuleiro colocado em cima da mesa. Escolhi um cutelo bem afiado, segurei-o com firmeza, levantei-o bem alto e com rapidez, sem qualquer reflexão, apliquei um golpe seco sobre o osso, golpe que separou o membro ferido do corpo que aos poucos se preparava para matar. Estava cumprida a tarefa. Tinha sido eliminado o pedaço de carne podre. O ser que o carregava poderia encher-se de novo de vida.
Com todo o rigor, cauterizei as veias, cozi a carne e apliquei-lhe os unguentos mágicos que se vendem na farmácia, para garantir que a ferida cicatrizaria devidamente.
Antes de sentir firmeza na cura, comprei uma prótese. O corpo teria que habituar-se a ela. Aos poucos fui obrigando a que a experimentasse, uns minutos, umas horas, uns dias, até que a mesma se tornou parte de si. Ao fim de alguns meses, a situação estava regularizada. O corpo tinha recuperado a saúde habitual, a prótese funcionava às mil maravilhas na substituição do membro, tudo era perfeito. Bem, tudo não. Havia ainda aquela dor intermitente que se instalara no lugar do membro cortado. Dor que quando dava acordo de si, nenhum analgésico era capaz de abrandar. Dor cujo desaparecimento não se vislumbra. Dor que a vai acompanhar até ao fim dos seus dias. Dor que a ciência apelida “do membro fantasma”.
sábado, 25 de dezembro de 2010
Manhã de Natal
Enquanto se reciclavam os despojos da ceia de ontem e se preparava o almoço de hoje, a banda sonora da manhã de Natal foi esta. Com o alto patrocínio do pai querido, que partilhou, com os restantes membros da família, o CD que eu, filha querida, lhe ofereci. Haveria melhor som para acompanhar o cheiro a cominhos do farrapo velho?
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
FIOS BRILHANTES - Maria Isabel Mendonça Soares
O Natal já vinha perto.
E, em casa, que confusão.
Toda a gente atarefada.
Com a vassoura na mão.
E as aranhas perseguidas.
Fugiam a oito patas.
E iam esconder-se no sótão.
Com os ratos e as baratas.
Lá em cima, muito tristes.
Lamentavam o seu mal:
- Ai, se ao menos nos deixassem.
Ver a árvore de Natal!
Mas, o Menino Jesus.
Mandou-lhes este recado,
Por uma estrela que brilhava.
Entre as frestas do telhado.
«Quando a gente desta casa.
Estiver toda deitada.
Aranhas, tendes licença.
De ir ver a árvore enfeitada.
As aranhas, uma a uma.
Saíram lá do seu canto.
E foram ver o pinheiro.
Que estava mesmo um encanto.
Mas, ao andarem pelos ramos,
As pobres aranhas feias
Deixavam atrás de si
Os fios cinzentos das teias!
O Deus Menino, porém.
Estendeu sua mão bendita.
Transformando em fios de prata.
Os sinais dessa visita.
Dizem que foi desde então,
Que se tornou habitual.
Enfeitar com fios brilhantes.
As árvores de Natal.
Fios Brilhantes, Maria Isabel Mendonça Soares.
E para todos os que lêem, já leram ou vão ler o Vida(s) Urbana(s), fica este poema que em tudo espelha o que é o espírito do Natal.
E, em casa, que confusão.
Toda a gente atarefada.
Com a vassoura na mão.
E as aranhas perseguidas.
Fugiam a oito patas.
E iam esconder-se no sótão.
Com os ratos e as baratas.
Lá em cima, muito tristes.
Lamentavam o seu mal:
- Ai, se ao menos nos deixassem.
Ver a árvore de Natal!
Mas, o Menino Jesus.
Mandou-lhes este recado,
Por uma estrela que brilhava.
Entre as frestas do telhado.
«Quando a gente desta casa.
Estiver toda deitada.
Aranhas, tendes licença.
De ir ver a árvore enfeitada.
As aranhas, uma a uma.
Saíram lá do seu canto.
E foram ver o pinheiro.
Que estava mesmo um encanto.
Mas, ao andarem pelos ramos,
As pobres aranhas feias
Deixavam atrás de si
Os fios cinzentos das teias!
O Deus Menino, porém.
Estendeu sua mão bendita.
Transformando em fios de prata.
Os sinais dessa visita.
Dizem que foi desde então,
Que se tornou habitual.
Enfeitar com fios brilhantes.
As árvores de Natal.
Fios Brilhantes, Maria Isabel Mendonça Soares.
E para todos os que lêem, já leram ou vão ler o Vida(s) Urbana(s), fica este poema que em tudo espelha o que é o espírito do Natal.
ONDE A MULHER É SECRETA, O HOMEM É INUTIL - Paul Éluard
A indiferença radicalmente excluída
Tudo se jogava
Em torno do ventre louco e das palavras sem nexo
De uma mulher feita para si mesma
E mais bruma do que real
Tinha um encanto a mais
Do que essa de quem nascera
Pleno de virtualidades
Acolhia tantos prodígios
Todos os mistérios
Na luz aberta do atónito
Sob a sua imensa cabeleira
Debaixo das suas pálpebras descidas
Numa voz abafada entremeada de risos
Ela e seus lábios contavam
A vida
De outros lábios semelhantes aos seus
Procurando entre eles o seu prazer
Como sementes ao vento
A vida também
De homens tão pouco agarrados a ela
De mulheres com mágoas esquisitas
Que se pintam para se apagar
E ninguém compreendia sobre que fundo de delícias e de certezas
A memória vindoura e memória desconhecida
Faria melhor do que a esperança
Para ser implicada no vulgar, no habitual.
Últimos poemas de amor, Paul Éluard, pp. 29-31. Relógio D'Água.
Para a CS, uma mulher misteriosa, "feita para si mesma", com a esperança que nos deixe ler as suas palavras, pois os seus comentários indiciam que serão um deleite.
Tudo se jogava
Em torno do ventre louco e das palavras sem nexo
De uma mulher feita para si mesma
E mais bruma do que real
Tinha um encanto a mais
Do que essa de quem nascera
Pleno de virtualidades
Acolhia tantos prodígios
Todos os mistérios
Na luz aberta do atónito
Sob a sua imensa cabeleira
Debaixo das suas pálpebras descidas
Numa voz abafada entremeada de risos
Ela e seus lábios contavam
A vida
De outros lábios semelhantes aos seus
Procurando entre eles o seu prazer
Como sementes ao vento
A vida também
De homens tão pouco agarrados a ela
De mulheres com mágoas esquisitas
Que se pintam para se apagar
E ninguém compreendia sobre que fundo de delícias e de certezas
A memória vindoura e memória desconhecida
Faria melhor do que a esperança
Para ser implicada no vulgar, no habitual.
Últimos poemas de amor, Paul Éluard, pp. 29-31. Relógio D'Água.
Para a CS, uma mulher misteriosa, "feita para si mesma", com a esperança que nos deixe ler as suas palavras, pois os seus comentários indiciam que serão um deleite.
CLANDESTINO - Paul Auster
Recordem hoje comigo - a palavra
e contra-palavra
da evidência: a táctil aurora, amanhecendo
da minha mão cerrada: o aperto
ciliário do sol: o trecho de escuridão
que escrevi
na mesa do sono
Agora
é a hora.
Tudo aquilo de que
me vieram privar,
levem-no agora de mim. Não
se esqueçam
de esquecer. Encham
de terra os bolsos,
e selem a boca
da minha caverna.
Foi lá
que sonhei a minha vida
rumo a um sonho
de fogo.
Poemas escolhidos, Paul Auster, pp. 94. Edições Quasi.
Para o Pedro, que é uma pessoa cheia de sensibilidade, cuja escrita nos faz sempre sorrir, quando não rir à gargalhada. Não lhe sei bem explicar porquê, mas este poema rima consigo.
e contra-palavra
da evidência: a táctil aurora, amanhecendo
da minha mão cerrada: o aperto
ciliário do sol: o trecho de escuridão
que escrevi
na mesa do sono
Agora
é a hora.
Tudo aquilo de que
me vieram privar,
levem-no agora de mim. Não
se esqueçam
de esquecer. Encham
de terra os bolsos,
e selem a boca
da minha caverna.
Foi lá
que sonhei a minha vida
rumo a um sonho
de fogo.
Poemas escolhidos, Paul Auster, pp. 94. Edições Quasi.
Para o Pedro, que é uma pessoa cheia de sensibilidade, cuja escrita nos faz sempre sorrir, quando não rir à gargalhada. Não lhe sei bem explicar porquê, mas este poema rima consigo.
SAUDADE -Florbela Espanca
A Noite vem pousando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura…
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura…
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
Por que é assim tão ´scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu nem sei donde me vem…
Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguém!…
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
Poesia Completa, Florbela Espanca, pp. 227. Publicações Dom Quixote.
Para a A., uma mulher sempre cheia de sentimentos. A Saudade. A Florbela Espanca.
Sobre a terra que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura…
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura…
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
Por que é assim tão ´scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu nem sei donde me vem…
Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguém!…
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
Poesia Completa, Florbela Espanca, pp. 227. Publicações Dom Quixote.
Para a A., uma mulher sempre cheia de sentimentos. A Saudade. A Florbela Espanca.
NOCTURNO - Juan Ramon Jimenez
Por onde quer que a minha alma
navegue, ou ande, ou voe, tudo, tudo
é seu. Que tranquila
em toda a parte, sempre;
agora na alta proa
que em duas pratas abre o azul profundo,
descendo ao fundo ou subindo ao céu!
Oh, que serena a alma
quando se apoderou
como rainha solitária e pura,
do seu império infindo!
Antologia Poética, Juan Ramon Jimenez, pp. 86. Relógio D'Água.
Para o António, porque efectivamente aos meus olhos, é uma pessoa com a alma serena. E porque o Juan Ramon Jimenez, me lembra sempre o seu Alentejo.
navegue, ou ande, ou voe, tudo, tudo
é seu. Que tranquila
em toda a parte, sempre;
agora na alta proa
que em duas pratas abre o azul profundo,
descendo ao fundo ou subindo ao céu!
Oh, que serena a alma
quando se apoderou
como rainha solitária e pura,
do seu império infindo!
Antologia Poética, Juan Ramon Jimenez, pp. 86. Relógio D'Água.
Para o António, porque efectivamente aos meus olhos, é uma pessoa com a alma serena. E porque o Juan Ramon Jimenez, me lembra sempre o seu Alentejo.
TACITURNO - Mário de Sá Carneiro
Há ouro marchetado em mim, a pedras raras,
Ouro sinistro em sons de bronzes medievais -
Jóia profunda a minha alma a luzes caras,
Cibório triangular de ritos infernais.
No meu mundo interior cerraram-se armaduras,
Capacetes de ferro esmagaram Princesas.
Toda uma estirpe real de heróis d´Outras bravuras
Em Mim se despojou dos seus brazões e presas.
Heráldicas-luar sobre ímpetos de rubro,
Humilhações a lis, desforços de brocado;
Basílicas de tédio, arneses de crispado,
Insígnias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro...
A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido
Enferrujou - embalde a tentarão descer...
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer -
Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido...
Percorro-me em salões sem janelas nem portas,
Longas salas de trono a espessas densidades,
Onde os panos de Arrás são esgarçadas saudades,
E os divans, em redor, ânsias, lassas, absortas...
Há roxos fins de Império em meu renunciar -
Caprichos de cetim do meu desdém Astral...
Há exéquias de heróis na minha dor feudal -
E os meus remorsos são terraços sobre o Mar...
Para o Ricardo, cujas ideias que põe por escrito continuam a surpreender-me. Para toda a tua complexidade não poderia ser menos que um Mário Sá-Carneiro.
Ouro sinistro em sons de bronzes medievais -
Jóia profunda a minha alma a luzes caras,
Cibório triangular de ritos infernais.
No meu mundo interior cerraram-se armaduras,
Capacetes de ferro esmagaram Princesas.
Toda uma estirpe real de heróis d´Outras bravuras
Em Mim se despojou dos seus brazões e presas.
Heráldicas-luar sobre ímpetos de rubro,
Humilhações a lis, desforços de brocado;
Basílicas de tédio, arneses de crispado,
Insígnias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro...
A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido
Enferrujou - embalde a tentarão descer...
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer -
Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido...
Percorro-me em salões sem janelas nem portas,
Longas salas de trono a espessas densidades,
Onde os panos de Arrás são esgarçadas saudades,
E os divans, em redor, ânsias, lassas, absortas...
Há roxos fins de Império em meu renunciar -
Caprichos de cetim do meu desdém Astral...
Há exéquias de heróis na minha dor feudal -
E os meus remorsos são terraços sobre o Mar...
Paris - agosto de 1914
Poemas, Mário de Sá-Carneiro, pp. 66-67. Biblioteca Editores Independentes
BONDADE - Sylvia Plath
A bondade plana perto da minha casa.
A Dona Bondade, ela é tão simpática!
As jóias azuis e vermelhas dos seus anéis de fumo
Nas janelas, os espelhos
Enchem-se de sorrisos.
Que há mais real do que um gemido de uma criança?
O gemido de um coelho pode ser mais selvagem
Mas não tem alma.
O açúcar tudo cura, é o que diz a bondade.
O açúcar é um fluido necessário.
De cristais que são como um pequeno penso.
Ó bondade, bondade
a apanhar delicadamente os grânulos!
As minhas sedas japonesas, borboletas desesperadas,
Para fixar a qualquer momento, anestesiadas
E lá vens tu, com uma chávena de chá
Numa auréola de vapor.
O jacto de sangue é poesia,
Nada o pode estancar.
Tu trazes-me dois filhos, duas rosas.
Ariel, Sylvia Plath, pp. 167. Relógio D'Água
Para a Helena. Que nos brinda com a genialidade das suas palavras. Que é mais doce que o açúcar, que é mais bondosa do que qualquer Dona Bondade.
A Dona Bondade, ela é tão simpática!
As jóias azuis e vermelhas dos seus anéis de fumo
Nas janelas, os espelhos
Enchem-se de sorrisos.
Que há mais real do que um gemido de uma criança?
O gemido de um coelho pode ser mais selvagem
Mas não tem alma.
O açúcar tudo cura, é o que diz a bondade.
O açúcar é um fluido necessário.
De cristais que são como um pequeno penso.
Ó bondade, bondade
a apanhar delicadamente os grânulos!
As minhas sedas japonesas, borboletas desesperadas,
Para fixar a qualquer momento, anestesiadas
E lá vens tu, com uma chávena de chá
Numa auréola de vapor.
O jacto de sangue é poesia,
Nada o pode estancar.
Tu trazes-me dois filhos, duas rosas.
Ariel, Sylvia Plath, pp. 167. Relógio D'Água
Para a Helena. Que nos brinda com a genialidade das suas palavras. Que é mais doce que o açúcar, que é mais bondosa do que qualquer Dona Bondade.
CÂNTICO NEGRO - José Régio
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Não vou por aí, José Régio, pp. 15-17. Edições Quasi
Para o Marco, o inconformista, o homem que continua a fazer-me gastar rios de dinheiro com os livros que nos mostra. Para ti só poderia escolher este.
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Não vou por aí, José Régio, pp. 15-17. Edições Quasi
Para o Marco, o inconformista, o homem que continua a fazer-me gastar rios de dinheiro com os livros que nos mostra. Para ti só poderia escolher este.
INSÓNIA - Boris Pasternak
Que horas são? Está escuro. Talvez - três.
Parece que não irei novamente fechar os olhos.
O pastor, no povoado, estala o chicote na madrugada.
Entra o frio pela janela virada para a rua.
E eu sozinho.
Mentira!
Com toda a pureza ondulante da tua corrente,
tu estás comigo.
Poetas Russos, pp. 123. Relógio de Água
Para a Cuca. Quem mais? Um poema russo. Poderia ser qualquer outro, dentro de um leque de algumas dezenas de poemas, porque também tu encerras em ti algumas dezenas de mulheres. Mas parece-me que terás o sentido de humor apropriado para integrares as diversas interpretações que estas parcas linhas contêm. A tradução foi ligeiramente alterada por mim. Já deu para perceber que não consigo resistir.
Parece que não irei novamente fechar os olhos.
O pastor, no povoado, estala o chicote na madrugada.
Entra o frio pela janela virada para a rua.
E eu sozinho.
Mentira!
Com toda a pureza ondulante da tua corrente,
tu estás comigo.
Poetas Russos, pp. 123. Relógio de Água
Para a Cuca. Quem mais? Um poema russo. Poderia ser qualquer outro, dentro de um leque de algumas dezenas de poemas, porque também tu encerras em ti algumas dezenas de mulheres. Mas parece-me que terás o sentido de humor apropriado para integrares as diversas interpretações que estas parcas linhas contêm. A tradução foi ligeiramente alterada por mim. Já deu para perceber que não consigo resistir.
O HOMEM E O MAR - Charles Baudelaire
Homem livre, tu sempre adorarás o mar!
O mar é o teu espelho; a tua alma contemplas
Na sua ondulação, no infinito vaivém,
E o teu espírito é fosso não menos amargo.
Gostas de mergulhar na tua própria imagem;
Chegas mesmo a beija-la, e o teu coração
Distrai-se algumas vezes do seu próprio som
Com o rumor dessa queixa indomável, selvagem.
Sois ambos, afinal, discretos, tenebrosos:
Homem, ninguém sondou os teus fundos abismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus tesouros íntimos,
Tanto que sois dos vossos segredos ciosos!
E porém, desde sempre, há séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis sem piedade ou remorso,
De tal modo gostais da carnagem da morte,
Ó lutadores eternos, irmãos implacáveis.
As flores do mal - Charles Baudelaire, pp.75. Assírio e Alvim
Para o Pipoco mais salgado. Por ser um homem cheio de mar, por ser um homem de muitos mares.
O mar é o teu espelho; a tua alma contemplas
Na sua ondulação, no infinito vaivém,
E o teu espírito é fosso não menos amargo.
Gostas de mergulhar na tua própria imagem;
Chegas mesmo a beija-la, e o teu coração
Distrai-se algumas vezes do seu próprio som
Com o rumor dessa queixa indomável, selvagem.
Sois ambos, afinal, discretos, tenebrosos:
Homem, ninguém sondou os teus fundos abismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus tesouros íntimos,
Tanto que sois dos vossos segredos ciosos!
E porém, desde sempre, há séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis sem piedade ou remorso,
De tal modo gostais da carnagem da morte,
Ó lutadores eternos, irmãos implacáveis.
As flores do mal - Charles Baudelaire, pp.75. Assírio e Alvim
Para o Pipoco mais salgado. Por ser um homem cheio de mar, por ser um homem de muitos mares.
Tradições de Natal
O Natal é passado com os "meus", ou como se diz em linguagem cuidada, com a minha família nuclear. Durante a tarde somos visitados por alguns amigos com quem lanchamos e trocamos presentes. Pessoas especiais que gostamos de mimar, que gostam de nos mimar. Durante a tarde preparam-se os doces, descascam-se as batatas, põe-se a mesa a rigor. Prepara-se tudo para o jantar de Natal, o ponto alto da quadra. O bacalhau cozido, prato que habitualmente declino, nesta noite, sabe-me melhor que o meu prato preferido. E por isso, nem sequer é dada a opção mudar o menu. O jantar é sempre barulhento. Todos falam sem pedir vez. Há alturas em que paro um pedacinho e escuto e sinto-me no seio de uma família da máfia italiana e nessa altura, mais que em qualquer outra, a satisfação de ter uma mesa cheia de gente querida e barulhenta invade-me.
Depois do jantar, saio durante alguns minutos, para levar duas rabanadas e uma fatia de bolo-rei a um colega de trabalho, que passa o Natal sozinho, numa cabina despida de enfeites ou conforto natalício. Damos duas de conversa e regresso a casa. É então altura de trocar os presentes. O membro mais novo da família, calmamente, distribui, com a minha ajuda, os presentes por todos. Desembrulham-se um a um, com tempo, debaixo dos olhares atentos. A troca de presentes não é o momento mais importante do Natal, mas é, sem dúvida, uma das formas de dizermos ao outro que pensamos em si quando escolhemos aquele objecto em especial, com o qual o vamos presentear. É uma forma de nos mimarmos mutuamente.
E porque os mimos são para todos os que nos fazem bem, os posts que se seguem são um presente para os amigos bloggers virtuais que me acompanharam durante este ano, com hiperligações e/ou comentários sempre simpáticos. Na esperança de que a vossa Noite de Natal termine com um sorriso adicional.
Depois do jantar, saio durante alguns minutos, para levar duas rabanadas e uma fatia de bolo-rei a um colega de trabalho, que passa o Natal sozinho, numa cabina despida de enfeites ou conforto natalício. Damos duas de conversa e regresso a casa. É então altura de trocar os presentes. O membro mais novo da família, calmamente, distribui, com a minha ajuda, os presentes por todos. Desembrulham-se um a um, com tempo, debaixo dos olhares atentos. A troca de presentes não é o momento mais importante do Natal, mas é, sem dúvida, uma das formas de dizermos ao outro que pensamos em si quando escolhemos aquele objecto em especial, com o qual o vamos presentear. É uma forma de nos mimarmos mutuamente.
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