sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

CÂNTICO NEGRO - José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Não vou por aí, José Régio, pp. 15-17. Edições Quasi

Para o Marco, o inconformista, o homem que continua a fazer-me gastar rios de dinheiro com os livros que nos mostra. Para ti só poderia escolher este.

INSÓNIA - Boris Pasternak

Que horas são? Está escuro. Talvez - três.
Parece que não irei novamente fechar os olhos.
O pastor, no povoado, estala o chicote na madrugada.
Entra o frio pela janela virada para a rua.
E eu sozinho.
Mentira!
Com toda a pureza ondulante da tua corrente,
tu estás comigo.

Poetas Russos, pp. 123. Relógio de Água

Para a Cuca. Quem mais? Um poema russo. Poderia ser qualquer outro, dentro de um leque de algumas dezenas de poemas, porque também tu encerras em ti algumas dezenas de mulheres. Mas parece-me que terás o sentido de humor apropriado para integrares as diversas interpretações que estas parcas linhas contêm. A tradução foi ligeiramente alterada por mim. Já deu para perceber que não consigo resistir.

O HOMEM E O MAR - Charles Baudelaire

Homem livre, tu sempre adorarás o mar!
O mar é o teu espelho; a tua alma contemplas
Na sua ondulação, no infinito vaivém,
E o teu espírito é fosso não menos amargo.

Gostas de mergulhar na tua própria imagem;
Chegas mesmo a beija-la, e o teu coração
Distrai-se algumas vezes do seu próprio som
Com o rumor dessa queixa indomável, selvagem.

Sois ambos, afinal, discretos, tenebrosos:
Homem, ninguém sondou os teus fundos abismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus tesouros íntimos,
Tanto que sois dos vossos segredos ciosos!

E porém, desde sempre, há séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis sem piedade ou remorso,
De tal modo gostais da carnagem da morte,
Ó lutadores eternos, irmãos implacáveis.


As flores do mal - Charles Baudelaire, pp.75. Assírio e Alvim

Para o Pipoco mais salgado. Por ser um homem cheio de mar, por ser um homem de muitos mares.

Tradições de Natal

O Natal é passado com os "meus", ou como se diz em linguagem cuidada, com a minha família nuclear. Durante a tarde somos visitados por alguns amigos com quem lanchamos e trocamos presentes. Pessoas especiais que gostamos de mimar, que gostam de nos mimar. Durante a tarde preparam-se os doces, descascam-se as batatas, põe-se a mesa a rigor. Prepara-se tudo para o jantar de Natal, o ponto alto da quadra. O bacalhau cozido, prato que habitualmente declino, nesta noite, sabe-me melhor que o meu prato preferido. E por isso, nem sequer é dada a opção mudar o menu. O jantar é sempre barulhento. Todos falam sem pedir vez. Há alturas em que paro um pedacinho e escuto e sinto-me no seio de uma família da máfia italiana e nessa altura, mais que em qualquer outra, a satisfação de ter uma mesa cheia de gente querida e barulhenta invade-me.
Depois do jantar, saio durante alguns minutos, para levar duas rabanadas e uma fatia de bolo-rei a um colega de trabalho, que passa o Natal sozinho, numa cabina despida de enfeites ou conforto natalício. Damos duas de conversa e regresso a casa. É então altura de trocar os presentes. O membro mais novo da família, calmamente, distribui, com a minha ajuda, os presentes por todos. Desembrulham-se um a um, com tempo, debaixo dos olhares atentos. A troca de presentes não é o momento mais importante do Natal, mas é, sem dúvida, uma das formas de dizermos ao outro que pensamos em si quando escolhemos aquele objecto em especial, com o qual o vamos presentear. É uma forma de nos mimarmos mutuamente.
E porque os mimos são para todos os que nos fazem bem, os posts que se seguem são um presente para os amigos bloggers virtuais que me acompanharam durante este ano, com hiperligações e/ou comentários sempre simpáticos. Na esperança de que a vossa Noite de Natal termine com um sorriso adicional.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Gostos não se discutem

Serei eu a única mulher no mundo a considerar que este senhor, apesar do seu mau gosto futebolístico, é um dos homens mais sexys em Portugal?


Imagem retirada daqui

domingo, 19 de dezembro de 2010

Paixões ingénuas



Posso resistir às mais diversas tentações, mas rendo-me sempre, sem excepção, ao mais insignificante fogo de artificio que cruze os meus céus.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O primeiro presente de Natal


E isto é coisa para imbuir uma mulher no espírito natalício. Obrigada Pipoco.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Os originais, e os outros

Há aqueles que são malas Fendi. E há os outros que são excelentes imitações. O problema destes últimos é que, embora consigamos enganar toda a gente ao apresentá-los como verdadeiros, nós vamos sempre saber que foram encontrados na feira de custoias ou na loja dos chineses.

Almoços marítmos


Têm-se almoçado assim, nos ultimos dias. Pode não ser no melhor restaurante do Mundo, mas é sem dúvida na esplanada com mais graça de Matosinhos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Amor ou Desânimo aprendido

Começaram por ser amigos. Mas os sentimentos em que se foram envolvendo eram demasiado intensos para estar contidos apenas numa amizade, e por isso, acabaram com a vida toda que estava para trás e rapidamente se tornaram amantes. Continuaram a viver as emoções com demasiado ímpeto e, após algum tempo, não conseguiam continuar a ser amantes. Então decidiram desaparecer da vista um do outro, embora não tenham conseguido evaporar-se da memória.
Como a memória tem vida longa, e a vontade move planetas, após longos anos em que não se vislumbrou a a existência de qualquer um deles pelo outro, um reencontro foi provocado. Rapidamente tornaram-se amantes e ainda mais rapidamente concluíram que a violência dos sentimentos não lhes permitia continuar a viver dessa forma. Decidiram então ser apenas amigos. Aos poucos compreendem que a amizade não lhes serve o propósito. Não tarda nada cada um deles voltará a desaparecer do raio de visão do outro. É certo que continuarão a habitar a lembrança.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Censura

otário s. m. [pop.] individuo fácil de enganar; lorpa

parvo  A adj. 1 pouco inteligente; 2 insensato; 3 pequeno B s. m. 1 indivíduo que revela falta de inteligênciae de bom senso; 2 indivíduo cujo comportamento é considerado desagradável e irritante

In Dicionário da Lingua Portuguesa 2003 - Porto Editora

Assim à primeira vista eu diria, "venha o diabo e escolha", mas estou certa de que, depois de efectuares uma análise apurada, vais conseguir explicar-me a avassaladora diferença. Ou então, deixas de uma vez por todas de questionar a minha escolha de palavras.

E já agora:

indiferenciado adj. 1 sem diferenciação, indiscriminado

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Palavras que eu gostaria de ter escrito #1 - A interpretação,

...ou a tradução selvagem, que pode, de algum modo, não respeitar as palavras ou a forma do original.

Deleita-me?

Deleita-me?
Que não sofras por mim e que eu não sofra por ti,
Que o concreto globo terrestre, nunca fuja debaixo dos nossos pés, nunca deixe de girar.
Deleita-me?
Que eu possa ser divertida - bem humorada - clara com as palavras.
E que não core de um vermelho violento, e não sufoque de ansiedade,
cada vez que, levemente, a pele dos nossos dedos se tocar.
Deleita-me?
Que, estando próximo de mim, possas calmamente abraçar outra mulher,
E que não me condenes às chamas do inferno, se diante de ti, um outro homem eu beijar.
Que o meu delicado nome, meu querido, não refiras, nem de dia, nem de noite - em vão...
Que, no silêncio da igreja, nenhum anjo cante sobre nós: Aleluia!
Agradeço-te?
Com o coração e com as mãos levantadas, pelo amor, que apesar de não saberes, me devotas
E pelas minhas noites tranquilas.
Pois que, são raros os nossos encontros ao pôr do sol.
Pois que, nunca caminhamos sob o luar.
Pois que, o sol nunca brilhou sobre as nossas testas.
Deleita-me?
Que tu - maldição! - não sofras por mim,
Que eu - maldição! - não sofra por ti.

Palavras que eu gostaria de ter escrito #1 - O som