sábado, 6 de novembro de 2010

Diálogos complexos

Antes do jantar

- Eu apenas vou jantar contigo, porque estou a gostar desta amizade emergente.
- E eu apenas te convidei para jantar porque quero conhecer melhor o meu novo amigo.
- Então estamos em sintonia, no mesmo patamar?
- Sem dúvida alguma.

Após o jantar.

-Estás quase a dormir.
-Não. Engano teu. Estou bem acordada.
-Tens os olhos fechados.
-Sim. Mas não porque tenha sono.
-Então tens o quê?
-Não é o que tenho, mas sim o que me falta.
-E o que queres tu ter?
-Sabes bem o que quero. Mas também sabes que não vou pedir.
-Não precisas. Aqui está.

Na hora da partida

-Afinal os teus vaticínios e promessas sairam gorados.
-Pois sairam. E as vezes que eu prometi e ensaiei.
-É melhor que comeces a acreditar nas minhas capacidades de leitura. Poupar-te-ão a uma série de desilusões.
-Tenho que admitir que a razão está do teu lado. E sabes que mais. Isso nem sequer me aborrece.

Nota mental

Não voltar a duvidar da fiabilidade das suas interpretações.
Afinal, ela tem mesmo visão raio-X, e por isso o mundo, aos seus olhos, torna-se mesmo transparente.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Transparências

Esticou a mão para lhe pedir o objecto. Ele sabia qual era o propósito do seu gesto. É um gesto que repete já maquinalmente. É um gesto a que ele responde automaticamente. Desta vez, porque conversava com outra pessoa, estendeu-lhe a mão sem sequer olhar para ele. Ele, em vez de lhe estender o objecto, como era suposto, agarrou-lhe a mão e ficou a segurá-la até ela lha pedir de volta. Ela disfarçou mal a perturbação que o acto lhe infligiu. Corou, gaguejou, ficou assarapantada, disse-lhe que tinha a mãos geladas. Rapidamente recolheu o objecto que ele lhe entregou e fugiu dali. Não sem antes pensar que ele se tinha atrevido a tocar-lhe pela primeira vez. Não sem antes pensar que tudo o que ele lhe tinha dito que poderia vir a ser, já era. Não sem antes pensar que afinal, mesmo apesar de ele negar com todas as suas forças, ele está mesmo cada vez mais transparente.

sábado, 30 de outubro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Leituras arbitrárias

Os primeiros que o leram pensaram: "É comigo que ela sonha"
Os segundos cogitam: "Ela sonha com um dos primeiros"
Os terceiros dizem em voz alta: "Ela não sonha. É tudo um embuste."
O último sorri e exclama para os seus botões: "Não é comigo que ela sonha"
Nenhum deles sabe do que fala. Nenhum deles acerta  no alvo.

Ao telefone

Estás a 100 metros de mim. Demasiado longe. Quase inatingivel.
Pego no auscultador do telefone e marco o dígito que me dá acesso à tua atenção. Atendes. Imediatamente dizes:
"- Já tinha saudades da tua voz doce. As outras sãos sempre tão rudes."
Apenas consigo responder-te um:
"Oh!" e enquanto sinto os músculos a derreter, esqueço-me da desculpa que arranjei para te ligar.

Até amanhã

Tem vontade de esperar mais um bocadinho, até que ele chegue.
Sabe que a recompensa virá em forma de sorriso aberto, daqueles que saem do interior. Sabe que o hipotálamo lhe será inundado de euforia.
Mas a pouco e pouco, começa a fechar os olhos. Sente que os ruídos-ambiente se tornam cada vez mais distantes. Tenta resistir, abrir os olhos. Não quer adormecer. Quer esperar e voltar a sentir a sua presença ali ao lado.
Fecha de novo os olhos. Curtas imagens oníricas povoam-lhe as células cerebrais. Aos poucos ele vai entrando nas imagens que o cérebro lhe transmite. Já o tem ali. Já não necessita de esperar. Deixa-se adormecer.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

domingo, 24 de outubro de 2010

Antecipação

Virei as folhas do poemário do Mário Cesariny, que está esquecido em cima da minha secretária, até ao dia de amanhã. Esperava, qual horóscopo uma previsão do futuro. Encontrei este desconcertante redemoinho.

"Todo o visível adere ao invisível, tudo o que pode estender-se ao que não pode estender-se, todo o sensível ao insensível. Talvez tudo o que pode pensar-se ao que não pode pensar-se."

Novalis (1772-1801), Fragmentos. (tradução de Mário Cesariny)

Quem diria.

É o meu maior aliado, este Outono disfarçado de Primavera, que não permite que as nuvens se instalem e obriga o sol a aquecer-me o corpo com o seu brilho.
E tu, começas a derrubar as paredes do iglu que ergueram em meu redor, usando apenas o olhar. E começas a aquecer-me a alma gelada usando apenas o sorriso.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Que tal te parece?

Chique não era bem a palavra que eu espera ouvir.
Chique não era a palavra que tu querias usar.
Mas a prudência meteu-se entre ti e mim.
Chique, dadas as circunstâncias, poderá ser um bom começo.

Os meus dias também são quadrados

Amaldiçoava o sistema. Invocava todas as instituições. Jurava a pés juntos que não lhe tinha sido enviada qualquer carta a convocar a sua presença. Afiançava, quando se colocou a hipótese de estravio, que recebia toda a correspondência que lhe era remetida. "- A culpa era daquela Senhora Doutora. De certeza que não tinha mandado a carta. - vociferava com ar furioso"
A Senhora Doutora, com toda a calma que lhe é inata, foi aos arquivos e encontrou o registo da missiva que tinha enviado. Mostrou-lhe as provas.
A criatura empalideceu. Tinha fornecido a morada de um familiar, que já não visitava há alguns 3 meses. Não conseguia compreender como tinha feito tal erro. Era efectivamente a sua caligrafia. Amansou de imediato.
A Senhora Doutora com a sua paciência, resolveu-lhe o problema e passou a ser a sua melhor amiga, uma alma a defender para todo o sempre.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Conquistas

No processo de conquista, o momento alto, para ela, é aquele em que o objecto a conquistar nega com todas as palavras e acções que está a sucumbir, para depois, apenas com um olhar, confirmar que acabou de se perder nela.
Ela é tão boa a ler os olhares!

Olhares

Há algumas semanas atrás, disse-te em tom de provocação que tinhas ficado com os olhos a piscar como uma slot machine, quando ela se cruzou contigo. Ripostaste, negando veementemente que tal fosse verdade. Os teus amigos vieram em teu auxílio, de imediato, confirmando a veracidade da tua posição e deixando no ar pistas misteriosas acerca do objecto da tua afeição.
Hoje, no final do dia, percebi que te tinha estado errada. Hoje, os teus olhos pararam no ar para fixarem um outro olhar. Hoje, os teus olhos pareciam um barco à deriva num mar revolto, ou assemelhavam-se a duas estrelas cadentes perdidas num universo imenso. Hoje, preferi calar-me e não te dizer palavra. Apenas te devolvi um olhar mascarado de timidez, como se estivesse a entreabrir uma porta. E quando te preparavas para me fazer responder a todas as dúvidas, virei costas e parti.