sexta-feira, 11 de junho de 2010

Encontrada

A claridade do amanhecer esbate os teus contornos difusos.
Devagar, vou-te perdendo nas pregas do tempo, nas dobras do caminho.
E em cada naco de ti que deixo para trás progrido e encontro-me.
Pedacinho a pedacinho...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Dias de liberdade

Caminhada ao pé do mar, um café na esplanada de eleição, um livro surprendente a acompanhar.
Os cheiros, os sons, o vagar dos gestos...
Sem aviso, começam a esbater-se as cicatrizes causadas pelos desencontros. E os dias, à medida que avançam, tornam-se mais e mais livres.

Agora, resta apenas esperar que uma nova teia seja urdida, e que se caia nela, qual mosca distraída.

sábado, 5 de junho de 2010

Será que é o amor sem limites...

...que conduz à loucura, ou é a loucura que nos permite amar incondicionalmente.



(juntam-se uns copos de vinho com um filme poderoso e a asneira surge espontaneamente.)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Magia

Estamos numa cidade de um qualquer país do Ocidente. A acção localiza-se dentro de uma casa. O cenário é uma sala decorada com excelente gosto e suavemente iluminada. Num dos cantos, sobranceiro à janela, está um sofá gigante. Da janela vê-se um parque e ouve-se, por uma pequena frincha aberta, o canto dos pássaros que habitam as árvores vizinhas, e que começam a acordar.
São dois os protagonistas da história, um homem e uma mulher, ambos com trinta e alguns anos de idade. Estão recostados no sofá, com os membros indolentes espalhados pelo tecido e os olhos semicerrados. São 4 da manhã. A noite já vai adiantada. O dia foi cheio de afazeres e emoções. Os corpos acusam cansaço e as mentes lentificam-se a cada pensamento que as atravessa. Os protagonistas têm estado a conversar sobre assuntos diversos, dizem banalidades, atiram piadas, jogam com as palavras...
De repente, ou não, porque nenhum dos dois consegue já lembrar-se dos pormenores, a conversa encaminha-se para o campo do existencial.
O homem resolve montar uma ratoeira à mulher. Ou então, procura efectivamente uma resposta, e considera que a actividade profissional da mulher lhe confere alguma sabedoria adicional. No seguimento do que estava a ser dito atira-lhe uma pergunta. Poderão não ter sido estas as palavras proferidas pelo homem, contudo, e uma vez que nenhum dos dois será já capaz de reproduzir com exactidão o conversa, estas terão que servir.

- O que leva alguém a acabar com uma relação que aparentemente é perfeita? Profissionalmente, qual é a tua interpretação? – pergunta o homem.

- Não te sei dizer. Se calhar é porque algo muda, porque a paixão acaba. Mas há pessoas que vivem juntas uma vida inteira. Não sei mesmo. – responde-lhe a mulher com alguma insegurança. Passa-lhe pela cabeça a ideia de que anos e anos de estudo se tornam inúteis quando necessitamos de uma resposta plausível.

- E para essas pessoas, que vivem juntas uma vida inteira, a paixão não acaba? – volta  à carga o homem, exibindo um sorriso desafiador.

-Se calhar são capazes de viver sem ela. Conseguem adaptar-se. As pessoas são todas diferentes. – remata a mulher usando uma das frases que servem sempre para explicar qualquer questão.

O homem não insiste. À primeira vista, a explicação parece satisfazê-lo, mas o seu sorriso torna-se irónico, deixando a dúvida no ar. A mulher percebe que ele sente que acabou de atingir uma pequena vitória, que ganhou a sua primeira batalha. A mulher tem um instinto competitivo arreigado e não baixa os braços perante uma derrota. Não vai descansar enquanto não organizar as ideias e produzir o discurso que apresentará ao homem, na próxima vez que o assunto vier à baila. E então, vai ao baú da memória buscar o que aprendeu nos livros, nos bancos da Faculdade e nos encontrões que a vida lhe foi dando, e começa a escrever.

“Há pessoas que conseguem viver juntas, mesmo depois da paixão se extinguir. Muito provavelmente vivem o dia-a-dia centradas noutros aspectos da sua vida, ou encontram a paixão noutros caminhos ou localizações.
Há, no entanto, pessoas que conseguem manter viva a paixão mútua que sentem, durante anos a fio, até que a morte os separe. E quando a morte os separa, fazem de tudo para que a morte os volte a unir, chegando mesmo a desistir de viver.
São muito poucos os casais que conseguem tal feito. Mas conseguimos identificá-los muito facilmente, no meio de uma multidão. São aqueles seres enrugados, que passeiam de mão dada, ou agarradinhos um ao outro, ou que à mesa do café, se olham como se se tivessem acabado de conhecer e apaixonar. São aqueles seres curvados que nos fazem ouvir violinos ou passarinhos a cantar, quando os vemos passar.
Há alguma fórmula mágica para se conseguir este efeito duradouro? Não, não há uma fórmula mágica, mas há certamente magia.
A magia começa quando ambos lutam contra a tentação de esconder pequenas verdades acerca de si, e as relatam ao outro, mesmo sabendo que correm o risco de o afastar para sempre. E continua, quando ambos compreendem que nada na vida é totalmente nosso, e que o que nos demorou anos a construir pode ser destruído em segundos, por uma qualquer força que está fora do nosso controlo, pois apenas conseguimos controlar uma ínfima parte daquilo que nos rodeia. E a magia cresce quando, todos os segundos de contacto com o companheiro visam a sua conquista e reconquista, mesmo que para isso tenhamos que esgotar todas as nossas forças.  E fortalece-se quando nos esquecemos que existimos e, nem que seja por apenas alguns segundos, o nosso mundo passa a ser aquela criatura que está à nossa frente, à qual vamos fazendo aproximações sucessivas, na tentativa de a incorporarmos, mas sem perdermos a nossa identidade, pois sabemos que foi essa identidade que a cativou.
E finalmente, a magia atinge o seu auge, quando conseguimos perder-nos nos seus olhos, nos seus braços, no seu corpo, mesmo sabendo que necessitamos, por uma questão de sobrevivência, de estar georreferenciados.”

Depois do discurso escrito, vem à mente da mulher um pensamento. Aquele homem não irá conhece-lo, porque ela, indo contra tudo o que colocou no papel, não terá coragem de lho mostrar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Acabadas de colher no meu jardim.


Têm sabor a Verão comprido, passado na casa dos avós.

Dúvida

Acontece, por vezes, que quando caímos a pique, arrastamos juntamente conosco um amigo. Nessas alturas de pouca lucidez, há ainda quem coloque a si próprio a questão:
- Devo soltar as minhas lágrimas, ou devo guardá-las até que consiga ajudar a enxugar completamente as dele?

domingo, 30 de maio de 2010

Suspensão

Naqueles dias em que acordamos suspensos por um fio...


...a unica alternativa é esperar que uma rajada de vento nos abane e devolva ao solo. Se possível, sem partirmos a cabeça (ou o coração) durante a queda.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A vida é difícil, mas nem sempre.


As contrariedades do dia-a-dia deixam-na sem um pingo de paciência. Com frequência barafusta, faz cara de zangada, ameaça fugir para longe.
E depois, chega a casa, olha pela janela e fica envergonhada porque se esqueceu da sorte que tem.

(hoje foi recebida por um gato preto cheio de amor para dar, e por este pô-do-sol)



domingo, 23 de maio de 2010

Nos teus olhos

A escuridão da noite envolve-me o pensamento, joeira-o, transmuta-o numa linha recta.
E eu abandono-me. Saio de mim e observo-me de um ponto longínquo.
Quero ver-me com o teu filtro. Ensaio olhar-me através dos teus olhos.
Sem esforço, traço a tira-linhas as dores que te inflijo.
Identifico, assinalo, sublinho todas as falhas que me relevas.
Rapidamente subo ao degrau seguinte.
Abre-se um sorriso no rosto.
Percorro os predicados que estimas em mim. Vou e venho. Calcorreio-os todos.
Percebo que não bastam, que são escassamente insuficientes.
Olho de novo para o todo, usando os teus olhos avisados.
E vejo, apesar de não compreender, essa tua obstinação em me querer.

terça-feira, 18 de maio de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sombras portuguesas


Quando direccionamos o olhar para locais impossíveis, encontramos o menos provável.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Devoção

Os olhos estão colados à sua figura. Os ouvidos sorvem as suas palavras.
Não consigo desviar-me.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

De regresso.


O marulhar dos lençois de linho antigos, chicoteados pelo vento. Metade de um pão com Tulicreme. O odor das mimosas. Um gato que ronrona.
Fecho os olhos. Permito ao sol que me aqueça a pele. Autorizo que o vento me ondule os cabelos.
E finalmente elas aparecem na retina, no cortex cerebral. Doces memórias de um infância eterna.

domingo, 9 de maio de 2010

Eu sou aquele rio que já não corre para o teu mar.