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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Bom dia


Acordo quando a manhã está quase a findar-se. Não oiço os ruídos do vento ou da chuva e penso que, de tão costumeiros, foram silenciados pela cacofonia do dia-a-dia. Abro a janela, vejo o sol e compreendo a calmaria auditiva. Já me desabituei de acordar privada de sons. Pego no telefone e, com o pretexto de lhes averiguar o estado de saúde, ligo aos progenitores. Não atendem. Nunca me atendem à primeira. Percorro a lista e resolvo desta feita perguntar pela descendência. Mais uma vez silêncio do outro lado. A terceira tentativa, feita já em desespero, não tem um fim diferente das anteriores. Tanta quietude perturba-me. Ligo a televisão, coloco o leite no micro-ondas, faço um expresso na máquina de café. Encho a casa de ruídos artificiais, inorgânicos. Distraem-me, mas não me consolam. Assoma-me à mente a lembrança do velório em noite de S. Valentim. Interrogo-me se não será isto a morte: um estado de omissão, em que chamamos e ninguém nos responde.

Os telefones tocam, um logo a seguir ao outro. Abandono tudo e corro de volta à existência.

sábado, 11 de janeiro de 2014

O silêncio e a multidão

Num acesso de rebeldia, resolvo abandonar o estado de letargia em que tenho vivido. Pego no telefone e marco o número da única amiga que amiúde me recrimina a ausência. Informo-a de que passarei em sua casa às 22:00 para bebermos um copo de vinho no sítio do costume. Dá uma gargalhada e responde-me apenas: "Até mais logo". Chego a casa já tarde, como qualquer coisa rápida e nem sequer penso em trocar os jeans e a camisola meio desbotada que usei durante o dia.  Hoje não tenho tempo para minudências. Amanhã talvez. O sítio do costume tem um vinho sofrível e o rapaz das bebidas mais giro dos arredores. Fica numa esquina e serve de poiso aos artistas underground da cidade, que transitam diretamente do teatro vizinho para a esplanada em construção. Pedimos dois copos de vinho e sentamo-nos à janela. Adivinha-se mais uma noite regada com conversa fiada e gargalhadas aos molhos. O barman mete-se connosco, mas não lhe damos trela. Hoje não permitimos intrusos. Amanhã talvez. Vejo, no meio da multidão alguém que me observa. A alguns passos de distância está um homem a fumar em silêncio. Ignora as duas acompanhantes verborreicas que o ladeiam e vai espreitando timidamente para a janela que nos emoldura. Não resisto à curiosidade e devolvo o olhar. Num segundo vislumbre reconheço-lhe as feições. Por instantes, deixo de ouvir as peripécias educativas da minha companhia e vagueio pela memória à procura de um nome para atribuir ao semblante. Não encontro. Conheço demasiadas pessoas e a idade começa a roubar-me a capacidade de as contextualizar. Regresso à conversa, certa de ter perdido dois ou três boas histórias e desisto de tentar situar aquele olhar que não nos larga, certa de que serei apelidada de malcriada, num futuro encontro. A noite faz-se já longa e a conversa amorna. Decidimos regressar a casa. Logo que entro no meu espaço, rumo à cozinha, cruzando-me pelo caminho com a estante dos livros. Um estímulo em tons de azul activa as sinapses e faz-se finalmente luz na memória cansada. O dono daquele olhar escreve livros e eu tenho uns quantos na estante para assinar. Hoje não lhe fiz a pergunta que há muito me atormenta: "Haverá cura para este permanente aparvalhar que acompanha o amor?" Amanhã talvez...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Laboratório experimental

Armada em fada do lar aparentada de Maria de Lurdes Modesto, no domingo, resolvi dar rumo aos restos de frutos secos e cristalizados sobrantes das festas, e confecionar uma espécie de bolo-rei. Escrevo espécie, porque ao que parece, a massa do bolo-rei deve ser feita com fermento de padeiro e deixada a repousar por uma série de horas. Na falta do fermento de padeiro usou-se o famoso e antiquíssimo Royal e o descanso da massa terá sido de uma hora, no máximo, que eu cá não tenho paciência para grandes esperas. Dizia também a receita, retirada da internet pois claro, que a iguaria natalícia deveria ser condimentada com duas colheres de sopa de aguardente velha e outras duas de vinho do Porto. Olhando para a quantidade de massa (e pensando no meio quilo de farinha acabado de despejar), quatro colheres de liquido pareceu-me muito pouco e portanto tratei de dobrar a dose e acrescentar mais um bocadinho, crente de que a humidade na confeitaria nunca caiu mal. Acabado de sair do forno e quebrando mais um dos preceitos, tratei de imediato de cortar uma fatia. Era o meu primeiro bolo-rei, e a impaciência não me permitia aguardar nem mais um segundo. Fiquei alcoolizada só com o cheiro. Tinha exagerado na humidade, estava visto. Só faltava saber se estaria minimamente comestível. Estaria? Estava. Minimamente diria eu. Consideravelmente disseram os meus quatro homens, que se foram guerreando para distribuir entre si as dez fatias que levei comigo hoje de manhã. Não fugindo ao seu habitual registo, fartaram-se de tecer elogios sarcásticos acerca do grau de embriaguez em que iria desembocar a experiência, mas isso não os impediu de discutirem até ao fim quem ficaria com a nona fatia, visto que eu não abdiquei da décima.
Acabam o lanche repetindo que casariam comigo, bastava para isso que eu me limitasse a cozinhar. Faço cara feia e respondo-lhes que sou quase a carochinha. Cozo, varro e passo a ferro, mas ninguém me apanha nisso de casar.


domingo, 5 de janeiro de 2014

Impressões digitais

Diz-me quem sentiu o coração a rasgar-se milhares de vezes, só porque durante tanto tempo acreditou em almas siamesas, que a complementaridade não é mandatária, que na diferença também se encontra a união. Diz-me quem aprendeu porque deu o peito às balas, porque é catedrático nas dores do coração, que há outras formas de amor mais calmas, menos pungentemente egoístas. Recuso-me a acreditar que o sentimento supremo possa tomar uma forma diferente desta que me atinge. Ainda que todo o espaço que o meu olhar consegue alcançar me prove que estou errada, não desisto da fórmula que construí, e não há quem me convença que existe outra diversa. Tal como as botas alheias não cabem nos meus pés, também o amor de outros seria incapaz de me servir, de me consolar corpo e alma. Necessito desta fogueira para onde a ideia da nossa existência simétrica me atira. Não consigo viver senão embrulhada nas labaredas da tua imagem, que me consomem desde o acordar até ao adormecer, e que reacendem, todas as noites, durante o sono quando, sem aviso ou convite, me invades e equilibras o universo onírico. Sou avessa à tepidez, à moderação, ao comedimento. Sou uma criatura de extremos, de tudo ou nada, de excessos. Não sei senão existir no borboletear do estômago, no bater descompassado do músculo cardíaco, no sufoco dos alvéolos pulmonares. Não sei senão viver deste amor singular.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Prazo de validade

Pelo que consta por aí, a programação neurolinguística, apesar de ter mais idade que eu, é a ciência oculta do momento. Um dia destes dei de caras com um especialista na coisa, que me informou que bastam 21 dias para mudar um comportamento, bastando para isso que se vá repetindo uma espécie de mantra descritivo do hábito que se pretende abandonar ou adquirir. Como sou uma criatura altamente influenciável e, na falta de outras soluções para eliminar um vício que de mim se apoderou, tratei logo de experimentar. Tenho começado os dias com um "Não mais...". Até ao momento não reincidi. Fiz hoje as contas. A correr bem, no mesmo saco em que trouxer os presentes, o senhor das barbas brancas, na véspera de Natal, levará para longe o peso extra que carrego.  Só falta mesmo saber se eu estarei disposta a entregá-lo.



domingo, 15 de dezembro de 2013

Delírios febris II

O corpo consumido pelos sintomas da gripe, ordena que já chega de cama. Levanto-me e trato da vida. Amonto-o aos pés da cama a roupa apanhada da corda, à espera que os braços esgotados recuperem a força necessária à dobragem. Na televisão passa um filme de qualidade duvidosa, que já vi pelo menos umas três vezes.  Decido despachar os pareceres que deverão seguir amanhã sem falta. Amanhã que é segunda e que por imposição exterior estarei a ouvir alguém a explicar-me como se gerem conflitos. Mas amanhã deverão seguir os pareceres. Hoje é domingo, e o tempo não pára. A voz que sai da televisão é rouca, uma espécie de trovão. O homem que a emite é uma espécie de colosso, um agregado de músculos bem definidos, descobertos ou cobertos em alternativa por uma camisola de alças justa. É o meu fetiche, o meu maior prazer proibido, a fonte da interrogação ilimitada.
Questiono-me se num dos seus semelhantes encontrarei a cura para todo o mal que me assola. Se assim não for, continuarei a procurar. Mas desta feita, sossegada pelos relâmpagos que me soprarão aos ouvidos, pelas tenazes que me cingirão o corpo, pela candura que me descansará a mente.

 
(foto gamada algures na net)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Delírios febris

Quando penso que já nada resta para além do cinismo mútuo, deparo-me com uma qualquer puerilidade que, lançada com a perícia de um ataque bombista cirúrgico, me devolve ao estado de enlevo inicial. Quero partir, mas sei que não é chegada a altura. Vou ficando enquanto o encanto não se esgotar.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Tributo à sabedoria rock-pop

Em 1992, e após o retumbante êxito de More than words (devido em parte à bandeira portuguesa a decorar o fundo do teledisco), os Extreme lançaram um álbum duplo, que eu decidi imediatamente que tinha que comprar. O Nuno Bettencourt, com as unhas pintadas de negro, o cabelo comprido que atirava para trás com um meneio de cabeça e o ar de bad boy com um coração pronto a derreter-se pela primeira que lhe aparecesse, tinha-se tornado na minha paixão adolescente do momento. Era lindo de morrer e eu necessitava de o ter a cantar para mim. Não podia esperar. Portanto, tratei logo de contabilizar as minhas poupanças e de fazer uma ronda pelos avós e tios para arrecadar o que faltava para comprar o vinil. E mesmo sem saber muito bem o que estava a comprar, corri à loja de discos antes que esgotasse. Chegada a casa com o objecto mágico dentro de um saco, tratei logo de o abrir e pôr a tocar no gira-discos. A audição do tão desejado quase provocou a apoplexia geral de quem vivia lá em casa, eu incluída. Aquilo nada tinha a ver com o êxito anterior e era apenas uma colectânea com uns tipos aos gritos e guitarradas e bateria. Socorro! Meu rico dinheirinho.  Com o tempo, fui ouvindo e aprendi a gostar moderadamente das músicas, quanto mais não fosse porque ia-me babando com enleio para cima das fotografias do guitarrista , e essa visão quase me faziam esquecer o escarcéu que ia sendo feito em fundo. Um dia destes, numa visita à biblioteca da casa dos meus pais, e enquanto procurava um livro antigo,  dei de caras com o vinil e resolvi dar uma espreitadela de novo nas fotos do fofinho do Nuno que, no final das contas já não me pareceu tão giro. A idade adulta provoca amiúde estas desilusões. Entretanto recordei-me que o disco tem um nome interessante, chama-se "III Sides to Every Story", e tem como subtítulo o fruto da divisão em três  partes:  1.  Yours, 2. Mine, 3. The truth.
Inconscientemente, sem me saber influenciada por uma banda moribunda, tenho tentado, nem sempre com êxito, confesso, fazer dessa frase uma máxima de vida. Não gosto de ver o mundo com linearidade. Tento procurar conhecer pelo menos três versões para cada história, a minha, a tua e uma intermédia, que é aquela que mais se aproxima da verdade.


         

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Tenho,

...gargalhadas a toda a hora, o melhor companheiro que existe, verão o ano inteiro e um castanheiro à janela.
Haverá melhor emprego no mundo?

 
(a fotografia não está grande coisa, mas foi o que se arranjou)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Os inadaptados

Está a cortar as flores secas das alfazemas, para fazer aquilo que chama "um hospital de ervas curativas", enquanto eu arranco as ervas daninhas do jardim. De repente quebra o silêncio para me perguntar o que é uma metáfora. Páro uns segundos para pensar nas palavras que devo usar e respondo-lhe ilustrando com um ou dois exemplos, sem ficar com a certeza de que percebeu. Em jeito de pensamento em voz alta eu deixo sair: - Tenho que te mostrar o "carteiro"! Pergunta-me quem é o carteiro e eu trato de lhe explicar que é um personagem de um dos filmes mais bonitos que já vi, que um dia destes lhe mostrarei. Quer ver já. Resumo-lhe a história e resolvo mostrar-lhe um pedaço. Pergunta quem é o poeta. Digo-lhe que se chama Pablo Neruda e pergunto-lhe se quer ler um poema dele. Responde afirmativamente. Vou à estante, retiro uma antologia do chileno e escolho um poema para lhe dar a ler. Agarra no livro e segue lendo mais uns quantos com uma expressão de contentamento. Da ombreira da porta observo-a com um misto de orgulho e receio. Temo que ao satisfazer-lhe a curiosidade esteja também a fomentar a sua exclusão?


sábado, 26 de outubro de 2013

Isto tem chovido imenso, não tem?


 
 
Não sei muito bem como ou porquê, (embora suspeite que foi obra da passarada que invadiu o meu território e adjacentes), mas aqui há coisa de um mês começou a desenvolver-se no jardim cá de casa um rebento que eu achei por bem não arrancar quando fazia a limpeza periódica das ervas daninhas. Faço salvamentos destes amiúde, quando me parece que de um certo esboço de planta pode vir a desenvolver-se algo interessante. Com o crescimento desta, começaram-se a fazer apostas sobre a sua espécie. Eu afirmava que era uma aboboreira. O Sr. Fonseca, autodidacta da agricultura caseira, garantia que era um pepineiro. Andamos nesta discussão durante o mês, esgrimindo argumentos da mais diversa ordem e lógica, sem chegarmos a consenso, tendo até descoberto que a família, ao que parece é a mesma, a das Cucurbitáceas, o que legitimava qualquer das posições. Hoje de manhã, após quase uma semana sem aceder ao jardim, mal vi uns raios de sol tratei logo de ir inspecionar as culturas. Ficaram esclarecidas as dúvidas. Das flores amarelas que vão murchando brotam pequenos pepinos. O meu pai tinha razão.De acordo com o Google os pepinos estão a nascer completamente fora de tempo. Nada de estranho pois. Estas duas coisas já se tornaram uma constante na minha vida.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Vicio(s)*

Começou tudo porque eu resolvi oferecer o livro que andava a ler. Desengane-se quem pensar que foi um acto de altruísmo. A criatura presenteada confessou-me que nunca tinha lido o autor em causa, (um dos meus preferidos, por sinal), e eu já andava com urticária, só de  saber que existia alguém desconhecedor de (e resistente a ler) alguns dos melhores pedaços de prosa que por aí circulam. Vai daí, numa tentativa de reparar tal falha, não hesitei e impingi-lhe o livro que carregava na carteira. Chegada a casa, fui directa à estante à procura de um substituto à altura. Como um semáforo, vermelho e tudo, o último livro do David Lodge entrou-me pelos olhos dentro e foi imediatamente eleito. "Um homem em partes" já estava à espera desde março e, a bem da verdade, não havia titulo que melhor se adequasse ao momento actual. As quase seiscentas páginas de letra 11 a espaço e meio não foram elemento dissuasor, porque afinal, o David Lodge é outro dos meus preferidos. Em jeito de sinopse e sem estragar o suspense, posso desvendar que, aos poucos, vai sendo contada a história de Herbert George Wells. O crescimento, os casamentos, o activismo político, a vida social, os sucessivos casos amorosos... Tudo isto enquadrado num período tão conturbado política e socialmente como rico em criação literária, onde se passeiam Henry James, William James, Bernard Shaw e mais uns quantos de calibre igual. Li-o num ápice e fiquei certa de que a escolha não poderia ter sido melhor. Lodge apresentou-me Wells, criador brilhante, homem cheio de defeitos, mas com um magnetismo ao qual não apetece resistir. Ando fascinada  a descobrir-lhe a obra. A "Guerra dos mundos" está a torná-lo em mais um dos preferidos. Não consigo compreender como foi possível ignorá-lo por tanto tempo.

* ou "Como transformar um post sobre livros numa pescadinha de rabo na boca"

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O seu estado de espírito é definido pelas músicas que a atormentam #23



Ninguém me disse que ia ser fácil. Aliás, numa tentativa de me convencerem a não mudar de vida, todos me disseram que iria ser difícil, muito difícil. E eu, teimosa como sou, não ouvi quem me rodeava e saltei em frente. E eis-me agora aqui, com 16* equipas a cargo (compostas em média por 10 pessoas cada) quando ainda em Março deste ano andava na minha vidinha calma de psicóloga, e a bufar de ansiedade de cada vez que tinha que tomar decisões por conta própria. Soltei-me das amarras e comecei a voar sozinha. Foi a maior loucura que fiz. Mas apesar de todos os percalços e dificuldades, e do cansaço que me invade os ossos no final do dia, tenho dado conta do recado e feito um trabalho muito melhor que alguns que andam nisto há anos. Finalmente encontrei o meu caminho. Estou mais feliz do que nunca. Sou completamente louca.

*(no final do ano, a correr bem, o número já terá aumentado para 21. como dizia o outro, é só fazer as contas)

sábado, 12 de outubro de 2013

Proverbial

Está finalmente declarado, publica e definitivamente, o meu azar ao amor. Acabei de constatar que ganhei o euromilhoes. Estou 3,93€ mais rica.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Atrás de um dia vem outro

Saio de casa confiantemente pouco vestida para o vento que sopra agreste, mas a capa do amor próprio não me deixa sentir ponta de frio. Começo o dia segura de que sou imbatível só porque faço três coisas ao mesmo tempo. Viajo até ao Portugal que sinto profundo, mas que fica já ali, a meia hora da cidade quase grande. Transformo-me no Pai Natal que veio mais cedo e com uns fatos de trabalho e uns pares de botas faço a felicidade de vinte crianças crescidas. "Agora só falta o boné a condizer!". Prometo ver isso do boné. Dou duas ou três más notícias que roubam a alegria toda. "É a vida". Abandono o Portugal que sinto ainda mais profundo. Leio as notícias pelo caminho. Respondo ao jornal. "Não se pode assassinar o que já está morto". Volto à cidade e entrego mais uns presentes. Aqui a alegria é mais contida. A urbanidade impõe a maturidade artificial. Almoço. Tomo um comprimido para o cansaço disfarçado de enxaqueca. Bebo mais um café. Delego sem confiar.Transformo-me no padre da freguesia e dou um sermão. Não acredito em nada do que disse e portanto termino-o em quinze minutos para fugir de mim. Desmonto e monto um cronograma como se fosse uma construção de Legos. Não li as instruções. Não lhe reconheço estrutura. Vai desfazer-se não tarda nada. Penso em ti e faço-te saber. Refaço contas e percebo que fui enganada. Leio nas entrelinhas que não queres saber. São sessenta e não cinquenta. Já se desmontou. Perco horas ao telefone e nada se resolve. Bebo o terceiro café. Marco reuniões. Reformulo estratégias. Respondo ao correio. Reencaminho mensagens pela segunda e terceira vez. Olho pela janela e já é noite. É hora de regressar e ainda está metade por fazer. Penso em mim. Já passaram mais de doze horas quando entro de novo em casa. Foi o tempo necessário para sentir que me atraiçoei enquanto era traída. Sou demasiado egoísta. Perdi a fé em mim e na Humanidade. Em modo automático desço ao jardim, sem saber muito bem porquê ou para quê. A lua põe-se lá ao longe no mar. Enfeitiçada, espero que o quarto-crescente alaranjado desapareça e só depois olho em volta. Com surpresa adivinho uma tarde de trabalho. Está tudo tão bonito. Redescubro que sou excessivamente amada. Volto ao início. Está na hora de dormir. Confiantemente visto só metade do pijama. Já é quase amanhã. Não há ponta de frio que me pegue.

domingo, 6 de outubro de 2013

Descoberta musical



O resto da discografia do rapaz (giro que se farta), pelo menos a que me foi dada a conhecer, não tem nada de excitante, mas esta música é simplesmente arrepiante.

(não sejas teimoso. carrega lá no play. não te arrependes)

Constatações musicais

Entra pela porta adentro esbaforida e pronta a descrever o novo parque infantil que visitou com os avós. Passados alguns segundos de verborreia, cala-se e pergunta-me se estou a ouvir Leonard Cohen. Apanhou apenas alguns acordes de Darkness, que lhe permitiram imediatamente identificar o artista. Digo-lhe que sim, que estou, e pergunto-lhe como adivinhou. Responde-me com a firmeza de quem tudo sabe: - A voz dele é inconfundível! - e afasta-se, já esquecida da narrativa urgente, a trautear num inglês macarrónico e com um ar trocista de superioridade "so long, Marianne, it's time that we began to laugh and cry and cry and laugh about it all again".
E com isto fico a pensar que se há música que tem a capacidade de se nos entranhar no corpo e correr pelas veias, a do Leonard Cohen vai mais além, invade o núcleo celular, imprime-se no ADN. 

domingo, 29 de setembro de 2013

Medo

Estou siderada com a capacidade discursiva dos candidatos vencedores das eleições autárquicas. Nunca vi tanta gente a falar com tanta segurança e propriedade sem efectivamente dizer coisa alguma. Este país está cada vez mais assustador.



sábado, 28 de setembro de 2013

Egoísmo diletante


Aqui há uns dias comentava com uns amigos que estava descontente porque colocaram uma bolas vermelhas e brancas nos fios da eletricidade que ficam no meu campo de visão, quando vou à janela do quarto. Fartaram-se de rir com a minha observação, pensando que eu estava a gracejar. Não estava. Aborrece-me que tenham posto ali aquilo a tapar-me o céu. Já tenho a visão demasiado toldada. Não necessito de mais obstáculos. Quero que se fodam os helicópteros.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Amores de verão


(estou convencida que estas criaturas, se assim o entendessem, seriam meninas para vencer todo e qualquer animal aquático, na missão de conquistar o mar. têm com elas despreendimento suficiente para virar as costas ao aborrecimento causado pela tempestade. não lhes causa pejo o abandono do lar. têm descaramento suficiente para, logo que a calmaria se instala, regressar)