"Vinham ter com ele pessoas que queriam tornar-se pedintes e, com a sua extraordinária habilidade, cujos instrumentos se encontravam empilhados, aleijava cada cliente de um modo apropriado ao seu corpo. Vinham ter com ele inteiros e partiam cegos, raquíticos, corcundas com o peito deformado ou com os braços ou pernas cortados. Adquirira aquela habilidade trabalhando num circo ambulante durante muito tempo."
A viela de Midaq - Naguib Mahfouz p. 58
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sábado, 16 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Segundas oportunidades
"Hesitar sempre foi um projecto de vida para alguns. Ser capaz de continuar a hesitar até ao fim, eis o difícil. Por vezes, um homem chega ao meio da vida e desata a correr como se soubesse para onde vai. Outros não o fazem, e a sabedoria é isto: no momento da partida excitante e rápida pára-se para apertar os atacadores. Hesita-se por falta de equipamento para a decisão. Não estou equipado para a prática desportiva da decisão. Eis, pois, que digo simpaticamente: ganhe você, por favor. O que de certa maneira é isto: eu não tenho tempo para ganhar, estou tão ocupado a hesitar que aqui fico, em redor de nada, de modo a ter uma referência negativa. Quando vir qualquer coisa que me excite devo virar-lhe as costas; quando me estiver a entediar, é aí que fico."
Matteo perdeu o emprego - Gonçalo M. Tavares, p. 161
Matteo perdeu o emprego - Gonçalo M. Tavares, p. 161
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Memória fotográfica na caixa de correio
"Gottlieb foi descoberto, foi preso, foi condenado à morte.
Greenberg, esse não pôde ver a morte de quem o assassinara. E tal, sendo regra, não deixa de ser uma injustiça."
Matteo perdeu o emprego - Gonçalo M. Tavares (p. 75)
Greenberg, esse não pôde ver a morte de quem o assassinara. E tal, sendo regra, não deixa de ser uma injustiça."
Matteo perdeu o emprego - Gonçalo M. Tavares (p. 75)
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Afectos II
He’d written his Inferno, his Purgatorio – she’d suffered through those – but in the end she could only watch him stare at the empty sheet of paper, and she knew he was reeling, that the walls of his Paradiso were becoming distant and blank.
The Quality of the Affection - Lloyd Lynford in Granta 122: Betrayal
The Quality of the Affection - Lloyd Lynford in Granta 122: Betrayal
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Afectos
"There was coldness between them. Olga didn’t write, Ezra didn’t write, but then he did, referring to himself and Olga in the third person, and he was nasty: He never said she was more bother than she was worth; he said she had given him more trouble than all the other women on the planet."
The Quality of the Affection - Lloyd Lynford in Granta 122: Betrayal
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Pescadinhas de rabo-na-boca
"Nós os economistas somos especialistas no tema da pobreza. Sabemos tudo o que há para saber, mas a pobreza aumenta dramaticamente, o que demonstra que não a compreendemos. Do mesmo modo, acumulamos conhecimentos sobre a natureza e os problemas continuam a gravar-se. Também acumulamos conhecimentos sociais, sociológicos e políticos, mas as situações sociais e políticas agravam-se de dia para dia"
Manfred Max-Neef - Chamar desenvolvimento a um suicídio colectivo! - Artigo publicado na revista A Rede.
Manfred Max-Neef - Chamar desenvolvimento a um suicídio colectivo! - Artigo publicado na revista A Rede.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Somos todos inocentes, pelo menos até prova em contrário.
"Cada metro que se afastava do armazém era um metro que se aproximava de Maria. No trabalho não falara dela a ninguém, e não lhe podia falar a ela do que fazia. Não tinha a certeza se esse tempo que passava a viajar entre os seus dois mundos secretos não seria quando era verdadeiramente ele próprio, quando era capaz de manter esses dois mundos em equilíbrio e saber que eram independentes de si próprio; ou se esse era o tempo em que ele não era nada de nada, um vazio a viajar entre dois pontos. Só a chegada a este extremo ou àquele se punha ou lhe confiavam um objectivo, e então era de novo ele mesmo, ou um dos seus eus."
O inocente - Ian McEwan (pp. 100)
O inocente - Ian McEwan (pp. 100)
domingo, 20 de janeiro de 2013
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Quero viver mais um dia.
"Fazer amor ou falar contigo tinham algo em comum: num caso ou noutro deixávamo-nos ir, cedendo a uma espécie de música interior, excitávamo-nos mutuamente, num jogo de prazer em que a tensão crescia. E de repente, do encontro dos corpos ou das palavras, algo explodia e brilhava e se tornava imensamente claro: o amor, ou uma qualquer visão das coisas e do mundo."
A Cidade de Ulisses - Teolinda Gersão. (pp. 21)
A Cidade de Ulisses - Teolinda Gersão. (pp. 21)
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Não te movas.
"A plenitude do ser é algo difícil de se conservar em cativeiro. O cativeiro é uma forma de castigo que o Ocidente privilegia e se esforça por impor ao resto do mundo, condenando outras formas de castigo (a sova, a tortura, a mutilação, a execução), igualmente cruéis e não naturais. O que é que isto nos diz sobre nós? A mim, diz-me que a liberdade de movimentos de um corpo constitui o ponto em que a razão pode ferir, mais dolorosa e efectivamente, a essência do outro."
Elizabeth Costello - J. M. Coetzee. pp. 81
Elizabeth Costello - J. M. Coetzee. pp. 81
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Nem só em Roma se é romano
Arcadas Romanas
Dentro da imponente igreja católica os turistas acotovelam-se na semiobscuridade.
As abóbadas abocanhavam-se uma atrás da outra, impedindo uma vista geral.
Tremulavam algumas luzes de lamparinas.
Um anjo, sem rosto, abraçou-me
e segredou ao longo do meu corpo:
"Não te envergonhes de seres ente humano, tem antes orgulho nisso!
No teu íntimo abrem-se arcadas sem fim, infinitamente.
Nunca ficarás concluído, como está determinado."
Fiquei banhado em lágrimas
enquanto ia sendo empurrado para a piazza, banhada em sol,
junto com Mr. e Mrs. Jones, O Sr. Tanaka e a Signora Sabatini,
dentro de cada um deles abriam-se também arcadas, uma atrás da outra, infinitamente.
Tomas Tranströmer - 50 Poemas
Dentro da imponente igreja católica os turistas acotovelam-se na semiobscuridade.
As abóbadas abocanhavam-se uma atrás da outra, impedindo uma vista geral.
Tremulavam algumas luzes de lamparinas.
Um anjo, sem rosto, abraçou-me
e segredou ao longo do meu corpo:
"Não te envergonhes de seres ente humano, tem antes orgulho nisso!
No teu íntimo abrem-se arcadas sem fim, infinitamente.
Nunca ficarás concluído, como está determinado."
Fiquei banhado em lágrimas
enquanto ia sendo empurrado para a piazza, banhada em sol,
junto com Mr. e Mrs. Jones, O Sr. Tanaka e a Signora Sabatini,
dentro de cada um deles abriam-se também arcadas, uma atrás da outra, infinitamente.
Tomas Tranströmer - 50 Poemas
sábado, 1 de dezembro de 2012
Ensinamento(s)
Auto-retrato
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
Natália Correia
Actualidade(s)
"Eis, portanto, outra psicologia. Foi de propósito senhores jurados, que eu próprio recorri à psicologia para ilustrar com um exemplo claro que, com ela, é possível concluir tudo o que quisermos. Depende de quem a utiliza. A psicologia incita a compor fábulas mesmo as pessoas muito sérias, e isso acontece-lhe involuntariamente Estou a falar da psicologia a mais, do abuso dela."
Fiódor Dostoiévski - Os irmãos Karamazov. pp. 470-471, vol II
Fiódor Dostoiévski - Os irmãos Karamazov. pp. 470-471, vol II
sábado, 24 de novembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
Sabes?
"- Eu sei. Diabos me levem por este meu mau feitio. Um ataque de ciúmes! Quando me estava a despedir dela, arrependi-me, beijei-a. Mas não lhe pedi desculpa.
- Por que não lhe pediste desculpa! - exclamou Aliocha.
Mítia, de repente, riu-se quase com alegria.
- Deus te guarde, querido rapaz, de alguma vez pedires desculpa à mulher amada! Sobretudo à mulher amada, por mais culpado que sejas para com ela! Porque a mulher, meu amigo, é...só o Diabo sabe o que ela é. De entre o pouco que conheço, às mulheres conheço-as bem! Se confessarmos à mulher a nossa culpa, desaba logo em cima de nós uma avalancha de censuras! Nunca nos perdoará directa e simplesmente, antes nos humilhará até mais não poder ser, antes nos acusará, mesmo de coisas que nunca aconteceram, não deixará passar nada mas, pelo contrário, acrescentará ainda alguma coisa da sua parte, e só depois perdoará. A melhor, a melhor de todas fará assim!"
Fiódor Dostoiévsy. Os Irmãos Karamazov. (pp. 314, vol II)
- Por que não lhe pediste desculpa! - exclamou Aliocha.
Mítia, de repente, riu-se quase com alegria.
- Deus te guarde, querido rapaz, de alguma vez pedires desculpa à mulher amada! Sobretudo à mulher amada, por mais culpado que sejas para com ela! Porque a mulher, meu amigo, é...só o Diabo sabe o que ela é. De entre o pouco que conheço, às mulheres conheço-as bem! Se confessarmos à mulher a nossa culpa, desaba logo em cima de nós uma avalancha de censuras! Nunca nos perdoará directa e simplesmente, antes nos humilhará até mais não poder ser, antes nos acusará, mesmo de coisas que nunca aconteceram, não deixará passar nada mas, pelo contrário, acrescentará ainda alguma coisa da sua parte, e só depois perdoará. A melhor, a melhor de todas fará assim!"
Fiódor Dostoiévsy. Os Irmãos Karamazov. (pp. 314, vol II)
sábado, 10 de novembro de 2012
"Fica comigo esta noite"*
"Durante todas as noites desse verão, as estrelas foram líquidas no céu. Quando eu as olhava eram pontos líquidos de brilho no céu.
Na primeira vez, encontrámo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou três palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caía como se flutuasse: cair através do céu dentro de um sonho.
Naquela noite, fiquei a esperá-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pensão. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas da hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram a única forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os braços dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao céu claro da noite. E faltou uma batida ao coração. O mundo parou. sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco , arrefecido, moldava-lhe a pelo do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer. Corremos pelo passeio de mãos dadas. A minha mão a envolver a mão fina dela: a força dos seus dedos dentro dos meus. Na noite, os nossos corpos a correrem lado a lado. Quando parámos: as nossas respirações, os nossos rostos admirados um com o outro: olhámo-nos como se nos estivéssemos a ver para sempre. Quando os meus lábios se aproximaram devagar dos lábios dela e nos beijámos, havia reflexos de brilho, como pó lançado ao ar, a caírem pela noite que nos cobria."
Cemitério de pianos - José Luís Peixoto, pp. (82-83)
(* titulo de um livro da Inês Pedrosa)
Na primeira vez, encontrámo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou três palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caía como se flutuasse: cair através do céu dentro de um sonho.
Naquela noite, fiquei a esperá-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pensão. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas da hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram a única forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os braços dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao céu claro da noite. E faltou uma batida ao coração. O mundo parou. sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco , arrefecido, moldava-lhe a pelo do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer. Corremos pelo passeio de mãos dadas. A minha mão a envolver a mão fina dela: a força dos seus dedos dentro dos meus. Na noite, os nossos corpos a correrem lado a lado. Quando parámos: as nossas respirações, os nossos rostos admirados um com o outro: olhámo-nos como se nos estivéssemos a ver para sempre. Quando os meus lábios se aproximaram devagar dos lábios dela e nos beijámos, havia reflexos de brilho, como pó lançado ao ar, a caírem pela noite que nos cobria."
Cemitério de pianos - José Luís Peixoto, pp. (82-83)
(* titulo de um livro da Inês Pedrosa)
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Portanto é.
"- Portanto, é verdade o que dizem: com um homem inteligente é curioso conversar..."
Os irmãos Karamazov, Fiódor Dostoiévsky, pp. 337
Os irmãos Karamazov, Fiódor Dostoiévsky, pp. 337
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Sabes tão bem como me transformar em manteiga.
"...ninguém me vence, senão pelo afeto, pelo carinho, pela cordura."
O anjo pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues - Ruy Castro (p. 67)
O anjo pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues - Ruy Castro (p. 67)
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